“Transversal do Tempo” e “A Terceira Margem do Rio” são dois títulos surreais que explicam muito em relação ao conteúdo dadaísta explícito contido em obras fechadas que eu presenciei serem editadas e comercializadas ao longo do meu trajeto pelas diversas formas de mídia nas quais fiz parte de algum modo. Como receptor, emissor, como pedra ou vidraça. Outros foram de discos que a broca comeu ou de livros que deixei prá traça.Já a maldição do samba eu carrego no sangue. Apesar de neto de imigrante e quase metaleiro, nasci no Rio de Janeiro. Não gosto de pagode. Gosto de Samba-enredo com letra maiúscula- “Lapa em Três Tempos” , “ Os cinco Bailes da História do Rio”,” Bum Bum Baticumbum bugurundum” e “Olê lê Pega no Ganzê”- indo de Beto sem Braço, Dona Ivone Lara, Zé Dedão à Joãozinho Mancheteiro. Fico exangue em pensamento, confiando o bigode, em algum momento pensando em pagode, rimando rico/ batendo fraco/É assim que fico.- Repente, pagode, samba de quadra, samba de roda, batucada. Se fosse da antiga era bamba. Hoje, para mim, isso é a maldição do samba.
Hoje é mais um sábado que passa nublado para mim, trancado nesse quarto- ar condicionado, vidro fechado, com medo da dengue, num merengue sem calda e sem rabo de saia por perto. Errado ou certo, sou fiel a essa maldição que carrego e deixa meu membro inativo, sem samba no coração e pensando no prosa e verso em que me inscrevi num fevereiro passado. Passo a limpo esse abril e espero sem fumar aquilo que mais quero. É assim que eu me entrego, dominado pelo texto e pelo samba canção num poema processo- anverso e reverso da medalha, sem recesso de criatividade e excesso de explicação. Quantas voltas a sopa de letrinhas descreve na forma da criação, não é mesmo?
Aqui é a cervejinha saideira. Em Minas é uma pinga e um torresmo que finaliza qualquer conversa de botequim. Seja numa roda de samba na Tijuca ou mesmo um leitão a pururuca num almoço mineiro em Santa Teresa- Rio de Janeiro.
Enquanto o paulistano é o coveiro do ritmo, todo carioca leva a maldição do samba para lugares incertos e não sabidos. Viva esse povo brasileiro, substrato colonizado- retratado no BRock de Brasília por Renato Russo, nos filhos de Gandhi e na cultura soteropolitana do Ministro Gilberto Passos Gil Moreira, no breque de Moreira da Silva e no Roque Brega de Wandner Wildner. A BatMacumba, Chiclete com banana, Almira Castilho a bunda music, o Axé, Jackson do Pandeiro e o Crazy pop Rock estão aí para qualquer inglês ver, ouvir e samplear como um samba de verão. Marcos Valle e uma bossa nova cinquentenária mandam lembranças. Para o Rio, essa é a maldição. Todo carioca carrega essa tradição.

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