Isaac Hayes nunca deu sorte em vida, quanto mais na morte. Até no além ele vai ser perseguido pelo rival, Norman Whitfield, declarado morto pela família anteontem, em release divulgado à imprensa. Norman, com 65 anos, é considerado injustamente um dos fundadores da MOTOWN. Só que o dado é errado. A MOTOWN foi fundada, administrada com mão de ferro e vendida à POLYGRAM por Berry Gordy Jr. Antes que falisse.Mas o assunto não são excutivos e sim produtores-compositores e, vez por outra, intérpretes. Norman era do quadro de compositores-produtores da TAMLA, primeiro selo de Gordy, no início dos anos 60. Foi êle quem deu forma e conteúdo aos grupos vocais negros sucessores do doo-wop, como Miracles, Temptations, Four Tops. Ao lado do trio Lamont Dozier e os irmãos Brian e Edwin Holland Jr., Whitfield escreveu, produziu, arranjou, empacotou e só faltou distribuir 90% dos sucessos gravados pelo selo e pela sua sucessora, a MOTOWN.
Mas a música negra não era só Detroit. Memphis e Nashville também mandavam ver. O selo STAX/VOLT não deixava por menos e com uma nota meio dissonante. Nos estúdios da Stax, negros e brancos trabalhavam juntos fazendo um som negro retinto que os WASPs adoravam! Otis Redding era o grande nome da gravadora, seguido de Booker T & MGs(Steve Cropper, na guitarra e Donald Dunn no baixo, eram whitemen!) e Wilson Pickett, logo cooptado pela ATLANTIC, que começou distribuindo o selo nacionalmente para depois tentar abiscoitar-lhe os talentos(Ah! Esses Ertegum Brothers!!!!). E foi lá que surgiu o alter ego de Norman Whitfield.
Isaac Hayes tocava piano bem, compunha melhor ainda e, como hitmaker, era genial. Otis Redding, Wilson Pickett, Os Staples Singers, Rufus Thomas, Sam & Dave e muitos outros ficaram conhecidos nacionalmente tendo Hayes como chef da cozinha no estúdio. Mas, como Whitfield, tinha um ego bem maior que seu corpo. Numa época em que quase ninguém queficava do outro lado do aquário era citado, Tanto Hayes como Whitfield impuseram seus nomes nos selos dos singles. Ficaram tão famosos como aqueles que produziam. Se Lamont Dozier era o “Black Bach” e Norman Whitfield era o “Black Beethoven”, compondo pequenas sinfonias para operários negros cantarem após seus turnos de trabalho, Isaac Hayes resolveu pegar pesado. Ele era o Black Moses! O cara que, com seu som, guiaria os exilados em direção à total redenção. Quanto a Martin Luther King, ele não queria apenas sonhar?
Dizem as más línguas que Berry Gordy teria convidado Hayes para integrar a equipe da Motown, onde teria um selo e uma equipe para fazer, mandar chover e o escambau. Whitfield, Dozier e os Holland bateram de frente: “Ou Nós ou Êle!”. O mercado estava meio ressabiado com a decepção que fora o disco de Ike & Tina Turner produzido por Phil Spector e Gordy, depois de refletir bastante pensando nas verdinhas, “esqueceu” o convite.
Hayes não fez por menos. O projeto endereçado a Gordy foi apresentado pela Stax. Nele, Hayes e sua voz baixo sensual vinham vestidos no título “Hot Buttered Soul”.
O disco quebrava tabus: apenas quatro faixas, duas delas covers-um de “Walk on By” e outro de “By the Time I Get To Phoenix”. Todas as faixas dando ênfase a guitarras wah-wah em uptempo, estilo que deu fama e nome ao guitarrista Melvin Ragin, revelado no disco. Resultado: mais de quatro milhões de discos vendidos e o Black Moses aclamado como o “novo Norman Whitfield”!
Foi aí que o pau quebrou. Enquanto Whitfield era mais contido, Hayes pirou o cabeção. Enquanto Al Bell(Stax)batia palma com as nádegas de tão contente, Berry Gordy Jr, resolveu passar uns dias fora de Detroit.
A competição entre os dois gênios da produção chegou até Hollywood. Enquanto Hayes compôs a abetura de “Shaft”, o primeiro detetive negro da história do cinema, Whitfield compôs, produziu e filmou “Car Wash- onde acontece de tudo”, um musical passado num lavajato, que rendeu rios de bilheteria.
E até na morte um não deixa o ouro em paz. Hayes foi primeiro, em 10 de agôsto. Hayes foi agora. Será que eles fazem parte GOrDy Records, de Berry, que chegou lá bem antes para sondar o terreno?
Na verdade, hoje eu ia escrever sobre guitarras, rock and roll e mulheres(ver a ilustração), mas o assunto Norman Whitfield foi bem melhor. Um obrigado ao Cláudio, companheiro de muita coisa boa e de reclamar fulltime da pobreza financeira que nos aflige.

Um comentário:
Very good......
Postar um comentário