quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Meu Rock Brasileiro

A discussão sobre o assunto é imensa e intensa. Teóricos dizem que não existe um Rock Brasileiro, que o BRock não significou porra nenhuma e que a Jovem Guarda não passou de uma tropicália dirigida ao pessoal de baixa renda e a Tropicália uma jovem guarda bahiana cooptada pelos universitários paulistas elitizados.
Eu, como adepto de explicar o óbvio pelo óbvio e nunca pelo incompreensível, tenho uma teoria própria a respeito desse assunto polêmico e parto da premissa, mais ou menos lógica, que, se Rock for mesmo atitude e comportamento, ele é um critério pessoal de classificação a respeito de um universo.
Assim sendo, eu(Guerra) tenho o meu Rock, o Zebedeu vai ter o dele, a Madame Mim o dela e estamos conversados. Sem discussão e como texto serve para isso mesmo, vai abaixo como foi e como é o Meu Rock Brasileiro.
O Meu Rock Brasileiro começou no cinema(Isso Mesmo!) quando minha mãe me levou para ver uma chanchada onde Oscarito imitava Elvis Presley numa faixa chamada “Calypso Rock and Roll”, num filme dirigido pelo Carlos Manga. Um pouco mais tarde, os berros de Little Richard começaram a me levar a alguma coisa instrumental que tocava no Rádio até chegar a 1962-63, quando eu descobri o “Hoje é Dia de Rock” na Radio Mayrink Veiga e comecei a tomar contato com o material que se fazia aqui e que alguns alucinados iam lá para tocar nos programas de auditório. Pela TV eu descobri Tony Checker- que dublava meu ídolo(Chubby) e, mais tarde, virou Tornado e veiona cola de “BR3”. Descobri Carlos Gonzaga, Renato & Seus Bluecaps, Ed Wilson, Paulinho Murilo, Sergio Murilo, Getulio Cortes. Foi nessa época que eu comecei a desejar uma guitarra elétrica.
O sonho da guitarra elétrica se desfez na minha canhotice. Não se faziam instrumentos para canhotos no país e ninguém de meu círculo sabia ensinar violão para canhotos. Foi aí que um amigo de rua, o Milton, me deu o toque:”passa prá bateria. Dá prá tocar de canhotinha. Fazqui nem eu”. E eu arranjei uma Gope azul que fedia a cola e tinha uns pratos que mais pareciam tampas de lata de lixo. Como músico tive alguns grupinhos, tentei a carreira, mas era de uma preguiça a toda a prova e nunca consegui estudar a coisa a contento. Fiz três anos de faculdade de música e hoje não consigo mais ler uma pauta que seja.
Meu universo musical compreendia grupos que tentavam alguma coisa em Português(Fevers, Renato, Os Beatniks, Os Incríveis, Os JetBlacks) e grupos mais sérios que já tinham alguma performance como Luisinho& Os Dinamites e Os Selvagens- no qual Silvinho e o Mário Baixista foram os primeiros que vi tocarem gaita de boca. Dentro desse universo haviam os grupinhos de baile( Bubbles, Analfabitles) que tocavam faixas de sucesso e a coisa ia andando até que alguns deixaram de lado o rebolar de cadeiras e passaram a levar o Rock a sério.
O Bubbles foi com Gal Costa para a Europa, assistiu a Ilha de Wight e voltou de lá como Bolha, sem Arnaldo Brandão, que ficou por Londres um bom tempo. Gravaram um elepê(“Um Passo a Frente”) e mais tarde um outro(“É Proibido Fumar”), sem repercussão, mas com alguma coisa a mostrar.
O Terço já tinha feito alguma coisa como “JoinStock Company” e, como trio(Sergio, Vinicius e Jamil Amiden) fez “Tributo ao Sorriso”. Mais tarde, Jamil fez “Do Zero adiante” e ficou naquilo, não fazendo mais nada que me desse notícia, encerrando sua participação no meu Rock. Já Cantuária, Hinhst e Cezar das Mercês fizeram muito mais coisa- aquele LP da Continental que estava ótimo no Master e foi estragado na mixagem e no corte. Com a entrada do Luiz Moreno, do Sergio Magrão e da consequente mudança para Sampa, o Terço apagou suas luzesno meu palco iluminado, com “Criaturas da Noite” sendo mais um LP da minha discoteca não-básica.
Naquela época, meu Rock Brasileiro passava pela esquina do Bobs(Ipanema) e tinha “O Lodo”(Beto, Pedro,Marcelo), “A Fenda”(Huck, Huguinho),” Veludo”(Fernado Gama, Lulu Santos, Lobão),” A Folha que Cai”(Carlos Lee),”Módulo 1000”(Candinho, Luiz Paul, Daniel). Também passava pela comunidade do Marinaldo no Rio Comprido, onde algumas grandes figuras moravam. Marinaldo era empresário do Módulo 1000 e de Ademir Lopes- a quem eu conhecia desde a época do “Conjunto de Danças Castelinho”(Ari Tell, Cidinho Cambalhota, Ademir & respectivas) e da “botinha do Motinha”. A comunidade era o ponto onde um fuminho fazia a conversa fluir sobre tudo e sobre todos, sempre baseada em baseados.
Meu Rock Brasileiro também passou pelo sítio onde os Novos Baianos moravam, em jacarepaguá e onde viu-se nascer a “Cor do Som” original, um subgrupo das múltiplas experiências que a tribo de Moraes & Galvão levava a cabo. Sergio Bandeyra e muitos outros que foram sem ter sido também estavam incluídos, como Nelsinho Jacobina, Ricardo Knolff, Penetra, Gilda Horta, Guilherme Araujo, Amin, Cláudio Carvalho, Jefferson Dropê, Lapi e toda a turma da Rolling Stone da Rua Marques de Caravelas, onde a contracultura era a sociedade que vivíamos, sem alternativa, sem nome e sem número de telefone.
Os ovos cozidos azuis de anilina que Ezequiel degustava com Malzbier no buteco de baixo da redação eram o reflexo da flor do mal que alguns tentavam cultivar no jardim de delícias que dividíamos com o resto. Junto com a maldade também haviam os chatos, como Jorge Mautner, Wally Salomão, seus “Narcisos em Tarde Cinza” e “Me Segura que eu vou dar um troço”.
Minha parcela paulista desse Rock todo teve como protagonistas um "Made in Brazil" e o primeiro disco de Rock Brasileiro que foi feito("Jack o Estripador"), um "Moto Perpétuo" de um Guilherme Arantes a quem eu conheci furioso numa entrega da "Pedra do Rock" no Teatro das Nações, Caíto Gomide e suas botas de travesti compradas numa banca da rodoviária da família Frias e uma Lucinha Turnbull a quem eu olhava diferente. Confesso que tinha tesão nela da mesma forma que ele voltou a despertar com a Madame Mim e seu "Helado de Limon".
Meu Rock Brasileiro teve Carlos Alberto Sion e seus concertos, onde Paulo, Cláudio e Maurício eram estrelas e o Urubu Roxo tão underground que as minhocas eram o grosso de sua audiência. Muita coisa se perdeu desse rock, que rolou comigo de uma forma que não rolou com ninguém. Agora é Cinza. Tudo acabado e nada mais de baseado.

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