terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Brasil já foi isso

O Brasil já foi bem mais pop que o habitual. Hoje o cenário é brega e banal. Fica sempre aquela desagradável sensação de queimação na boca do estômago. Uma azia danada. As duas polegadas a mais de Marta Rocha eram bem mais pop que as n polegadas a menos da Ciccarelli. Marta Rocha virou bolo de padaria por ser tão gostosa no imaginário. E gostosa era o que não faltava. Tinha prá dar e vender. Tinha gostosa na revista, na TV, na chanchada, na radiolândia e na revista do rádio,” que toda semana eu espero/revista do rádio/ê jornaleiro/É essa que eu quero”! Pop era repetir o “Gostoossaa” de Zé Trindade, fosse na tela, fosse no Microfone da Mayrink Veiga- a mais pop das emissoras, líder de audiência e fazendo eco pelas esquinas e quebradas
Gostosas também eram as certinhas do Lalau, que faz 40 anos de morto. Mortos também estão Wilza Carla, Walter Dávila e muitos que fizeram o radio ser bem mais pop que qualquer papa.
Tudo que passava pelo rádio, mais precisamente pela rádio nacional, virava pop. O Primo rico, o primo pobre, jerônimo – o herói do sertão e, pelos 980Khz(na época megaciclos!) pop da emissora, o sombra sabia de tudo. O pop chegava as raias do delírio, pois não havia imagem. Só o áudio e era ele que estimulava a fantasia da galera. Qualquer partida de futebol chinfrim pelo rádio se transforma em clássico de proporções épicas. A rádio nacional transformou o Flamengo no clube de futebol mais conhecido do planeta! O bordão de Germano(“Mengo.....Tu é o Maior!”) saiu do delírio de um torcedor de programa humorístico para uma verdade incontestável na alma da maior torcida do Brasil. O Flamengo é mais famoso que Jesus Cristo graças à equipe esportiva da Rádio Nacional-praça mauá 7-vigésimo primeiro andar.
A música era pop ao vivo e sem gravações. Era apresentada direto no microfone e vista pela audiência nos programas de auditório que fizeram um Cesar de Alencar e um Manoel Barcelos. Segundo Ayrton Amorim(Um dos “Bacharéis do Disco”), a primeira rádio do RJ a tocar disco foi a antiga Radio Cruzeiro do Sul(hoje Metropolitana), numa espécie de teste para os Produtos Elétricos Byington(PEB), industria proprietária da emissora e uma divisão da Discos Continental – na época a maior gravadora do país. Isso aconteceu em 1948, junto com a chegada dos 331/3 e o “Long Playing”.
Em 1952, a família Khoury coloca no ar a Rádio Eldorado que, oficialmente, passa a tocar discos e a veicular programação pré-gravada, seguida pela Radio Jornal do Brasil. A primeira rádio musical a surgir é a Tamoio – com seu dístico “Música Exclusivamente Música”, com a programação feita pelos “Bacharéis do Disco”. A Mundial musical surge em 1965 e o rádio, já combalido pela moléstia televisiva, passa a ser o assessor de promoção da indústria musical. A apoteóse chega ao fim com o barateamento do hardware e o surgimento do Mp3, responsável pela aposentadoria precoce do CD de áudio e a consequente obrigação de se reformular todo um mercado, sua propriedade intelectual e o direito autoral.
Cortando epistemológicamentea coisa toda, a conclusão que se chega é que o cenário pop está sofrendo uma de suas calmarias, já que a efervescência do século XX chegou a um ponto de saturação nesse início de novo milênio. A revolução tecnológica, ao possibilitar a cada um ser seu próprio veículo num processo de arte própria e descartável, está transformando a indústria cultural radicalmente. A música que você quer o limewire acha para você e você corta um CD no seu próprio hardware. A Teoria da Informação Reversa chegou ao pop. O antes já era e o futuro indica o presente num marasmo imensurável.
O que será do amanhã nem letra de samba-enredo consegue prever, não havendocigana que leia esse destino. Precisamos mesmo é de um remédio que nos cure esa azia do banal. Que ele existe todos sabemos. O problema é aceitar a verdade como fato e correr atrás de algo menos corriqueiro, onde o recado volte a ter um pouco de metáfora. A coisa está explícita demais e isso está levando a discussão cultural a um impasse. A cabeça precisa de um pouco de trabalho senão o alzheimer das idéias vai tomar conta. E isso não é futuro, né?

Nenhum comentário: