sexta-feira, 31 de julho de 2009

Beijo na Boca

O ILSOPE(Instituto Luiz Sergio de Opinião e Pesquisa) fez uma pesquisa com os sete leitores desse blog para saber o que eles gostam de ler aqui. E as historinhas que eu conto estão liderando a pesquisa! Realidade ou ficção, elas são um apanhado de meu imaginário do que eu presenciei em toda minha exposição na janela. Assisti a coisas inenarráveis, narráveis, comezinhas, fantásticas, medíocres, babacas, egocêntricas e a muita bobagem e muita bichice, temperadas com doses de prepotência e covardia insuportáveis. Como diria Devassa Snow- a aeromoça dos Stones, “foi uma l-o-u-c-u-r-a . Conte tudo. Não omita uma linha, mas não me comprometa”.
Ela( Devassa em pessoa) estava comigo na noite em que aconteceu o que vou contar aqui. Foi na noite de inauguração do “The Frenetic Dancin Days”, lá pelo meio da década de 70. O “Regine´s” rolava solto e lá dentro rolava de tudo. Mas, havia um problema. A disco-boite era para eleitos endinheirados e mesmo assim, aqueles que fossem considerados interessantes na porta, guarnecida com unhas e dentes por uma negona caribenha que 11 entre 10 machinhos da sociedade tavam a fim de comer, mas que não sabiam que ela desprezava uma cobra e adorava uma aranha.
Foi aí que Nelsinho Mota, dentro da filosofia “loucura para todos”, resolveu partir para casa disco de distribuição popular, dirigida à garotada e com bolações que deixariam Chez Regine ultrapassada. E foi o que aconteceu. Nelsinho alugou umas três lojas contíguas no Shopping Center da Gávea, descolou uma grana com financiadores ocultos e montou a casa, toda decorada que nem Teatro Moderno( paredes preto fosco que absorviam a luz, dando a impressão de um vazio absoluto), com um som condizente, um DJ que funcionava(Pelé) e cinco taxi- girls já programadas para virarem grupo vocal. A casa funcionava diáriamente e, no meio de cada session, as “Frenéticas” davam um pocket-show que temperava a coisa de uma forma interessante e agradável.(nota da redação: Nessa época, Leiloca ainda não era uma chata, Sandrão não tinha sido mãe de uma filha de Gonzaguinha e as futuras esposas de Zé Rodrix e Chico Anísio ainda eram solteiríssimas e muito mais que desejáveis).
E a noite de inauguração da nova casa foi um arraso. Nelsinho chegou triunfalmente, nada devendo a um Mick Jagger. Saltou de uma limousine negra, acompanhado de Marília e tomando “Moet & Chandon” pelo gargalo. Guilherme Araújo veio de fusquinha com chofer. A droga da moda era o Mandrix e quem se prezasse tinha que tomar, no mínimo, uns três antes de sair de casa. E assim, personalidades drakeadas iam chegando caindo pelas tabelas e muita gente legal com tráfego cinco estrelas: Ney Matogrosso, Rudy, Luiz Fernando, Luiz Maurício( só foi virar Lulu Santos bem mais tarde), Saulo Vidraça, Rodrigo Santiago, Celinha( sem Carlinhos de Oliveira), André Midani e Mônica, Boni, Maciel e Maria Cláudia e por aí iam os convidados a chegar e Nelsinho, mais pra lá do que prra cá, tentava acomodar a todos, dando uma de mestre de cerimônias.
Eu e Devassa fomos acomodados na mesa de Guilherme Araújo que, amigo que era, foi logo pedindo o Whisky existente a frenética que passou. E o lance rolando, a gente dançando, se acabando, cansando e sentando pra descansar. Numa dessas sentadas, aconteceu algo assaz interessante.
Tava eu rolando pelos astros distraído, quando alguém pisou no meu joanete de verdade, olhei e vi um cara vindo de costas e sentando no meu colo. Dei-lhe duas cutucadas de leve perguntando o que era aquilo. Ouviu-se o seguinte diálogo:
-Ihhh!!!! Ta me estranhando? Eu sou o Ronaldo!
E, ato contínuo , minha boca foi beijada cum selão daqueles de “instinto selvagem”.
Respondi:- “Meu amigo, tu errou de colo e e errou de beijo. Eu não sou quem você acha, porra!”.
Só depois do beijo, chocado, é que eu fui prestar atenção naquele rosto coberto de purpurina dourada.”Hmmmm, bem que você podia ser o Rick”, disse ele se levantando.
A cena, completamente inusitada ao meu machismo, levou Devassa Snow a melhor das gargalhadas.-“Hmmmmmm, Guerrinha! Conta que você gostou......Conta”.....
Fui gozado a noite toda pela Devassa, Guilherme, Ney e todo mundo que chegava e ouvia o acontecido. Fiquei meio puto.
Na saída, acomodei Devassa na garupa da moto, e, completamente bêbado, a deixei no prédio onde morava, na Francisco Sá. “Não vai subir?........Nem pra fumar unzinhu?.....
-Ah! Eu vou é dormir, porra. To cum gosto ruim na boca até agora”.
Devassa riu de novo e subiu. Eu? Fui pra casa direto. Não passei nem na Guanabara pra ver se tinha alguém.........
Uns três anos depois, Ronaldo Resedá lançou Lp e gravou aquele tema de novela(“Você sabe, Você sabe-Qual é a última moda da Ter-r-r-a”) E lá fui eu entrevistar o cara para uma matéria.
Chegando na sala de imprensa da Som Livre, olhei aquele cara e aquele jeitão me pareceu o de alguém conhecido. Ele apertou a minha mão, me convidou para sentar e foi perguntando:
-Não Lembra de Mim? Eu sou o Ronaldo. Não está mais me estranhando, está?

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