segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pelas Ruas do Rio

“Quantas Oportunidades Você Já Perdeu Por Não Saber Dançar?” . Esse era o lema da Academia Mário de Moraes, que tinha uma sede na antiga Rua São José, demolida naquele quarteirão entre Rua da Assembléia e Nilo Peçanha, num casarão em que a Academia ficava na loja, com portas abertas para todo mundo olhar, aqueles passos pintados no chão e aquele bando de paraíbas dançando de um lado pru outro, ao som de uma vitrola.
Eu, que trabalhava de office-boy para meu pai, sempre que passava por ali, parava para ver os casais rodopiando ao som de uma valsa ou de um tango ou mesmo um sambinha- que, no som daquele acordeão ficava mais esquisito que muqueca de ovo.
Mário de Moraes era uma daquelas virtuoses que só o Rio de Janeiro soube criar nos anos 30/40, ao mesmo tempo e da mesma forma que a dupla de gêmeos Arnaldo & Arnoldo( trabalhei com estes na Rádio Roquette Pinto), dos Trigêmeos Vocalistas, de Romário – O Homem Dicionário, Edu da Gaita e outras esquisitices que ganhavam a vida entre o entretenimento radiofônico e o Teatro de Revista. Mário era dançarino famoso e prsente em uma série de espetáculos nas grandes casas do gênero, como os Teatros Rival, Recreio e São José. Com a decadência da Revista como Gênero Teatral carioca por excelência, a maioria das casas transformou-se em salas de exibição duvidosas ou pornôs completamente baixaria e seus artistas e vedetes foram se virar na TV, acabando como humoristas. Aqueles que não tiveram vez foram abrindo "academias", seus músicos foram se virando no carnaval e todo um trabalho se retraiu de forma à extinção, já que a TV era mais rápida na crítica de costumes e não necessitava de um tanto de mão-de-obra da qual um espetáculo teatral dependia.
Eu, Aloísio Reis e Diter Stein , num carnaval dos anos 70, fomos levados por Ezequiel Neves para compor a banca de jurados do concurso de fantasia no baile gay do São José- na época tão famoso quanto o Gala Gay mais tarde.
Além de sobreviver como cine pornô nos outros meses do ano, o carbaval era uma fonte de renda para casas como o Cine Íris e o Cine São José, que eram situados no Buraco do Caubí( uma das zonas gays do centro), e totalmente desprezados por quem não entendia daquilo.
Aluísio, preocupadíssimo com o que fazer, quis saber de Zeca como proceder na oportunidade. Ezequiel(Zeca) não fez por menos."Fala para todas que passarem que ela está linda". E foi o que nós fizemos. Até que, a uma certa altura, entrou uma nêga do bafão feia de doer, e foi ouvindo de nós todos o elogio. Assim que ela passou por nós, virou-se e disse: "Quer Saber? Vocês são todas umas falsas"...... e foi embora na direção do banheiro.
Quem anda pelo centro do Rio hoje não tem idéia do que a especulação Imobiliária já desfigurou a paisagem. Chegou –se a remover dois morros para “alargar os horizontes”. Em cima de um deles(Castelo), uma igreja colonial foi arrasada, além de todo um lote de edificações de um rio setecentista que poderia rivalizar com São João Del Rey em harmonia.
De aterro em aterro, a Baía de Guanabara vai se transformando numa poça d´água nojenta e poluída, sem a mínima perspectiva de preservação. Quem viu e andou ela Av. Antonio Carlos sem aquele Fórum horrível e sem propósito foi perdendo, aos poucos, o sentido amplo que o Cais Pharoux e a Praça XV davam a toda aquela lateral da Baía, mutilada com a derrubada do antigo Mercado Central. O aterro criminoso feito na Praia de Sta Luzia, isolou da margem da baía o Prédio da Santa Casa e a Igreja de Santa Luzia, só não derrubada não se sabe porquê.
Na minha visão de carioca exilado, o Rio não tem mais jeito. Os detratores da cidade maravilhosa conseguiram o que queriam. Acabaram com ela. Hoje, o lugar onde eu nasci e vivi 35 anos é uma “cidade turística”, explorada pelas autoridades corruptas, crime organizado e uma elite predatória e sem escrúpulos, não necessáriamente nessa ordem.

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