sábado, 11 de julho de 2009

Pelas Ruas de Ipanema

Além de título de elepê do Erasmo Carlos(o que tem “Meu Ego”), as ruas de Ipanema sempre foram especiais para quem, como eu, vagou por elas de 55 até 84. Vi, ”com esses zóio qui a terra há di cumê”, as coisas mais incríveis e vivi um dia-a-dia local que todos acompanharam pelo “Pasquim”. Tropeçar com Vinicius, Hugo Bidet, Jaguar, Albino Pinheiro, Antonio Pedro, Hugo Carvana, Tom Jobim et caterva completamente detraquês era um dia sim e outro também. Não havia nenhuma novidade nisso e eles falavam primeiro o “Cuméquié”. Na verdade, tudo era uma família grande. Não muito unida, mas uma família.
Querendo ou não, todos se conheciam de vista em Ipanema. As vezes, a gente cruzava com a mesma pessoa mais de uma vez no mesmo dia. Pela força do hábito, você acaba cumprimentando, né mesmo?
E também querendo ou não, você acabava sabendo os endereços da galera. Macalé e Severino Araújo( o maestro) moravam no mesmo prédio, na Visconde de Pirajá- em cima da Casa Reis, a papelaria do bairro. Heloisa Buarque de Hollanda morava num prédio na Barão da Torre, entre Garcia e Maria Quitéria, que está em pé até hoje. Antonio Pedro morava na Visconde de Pirajá, num prédio velho em frente ao Chaika- um misto de fast food, restaurante e doçaria que era o xodó da área. O velho Bastos Tigre e o Barão de Itararé moraram no mesmo prédio, dois números abaixo na Visconde, ao lado do Cinema Pirajá. Leila Diniz e Marietta Severo dividiam apartamento no 16 da Aníbal de Mendonça, quase na esquina da praia e todos( inclusive eu) enchiam o saco das duas perguntando quem era o “Rato”(assassino na novela “O Sheik de Agadir”). Só depois é que ela se mudou para a Epitácio Pessoa, para o prédio onde, além dela, moraram Millor Fernandes e Maria Teresa Graupner. Wilson Simonal morava em frente ao antigo Cinema Astória, que depis foi TV Excelsior. Ao lado da Excelsior ficava a Churrascaria Ipanema, que terminou seus dias como a Pizzaria do Seu Ricardo. Em frente, também na Visconde, ficavam a oficina do Seu Artur, do Parmênio e a Academia do Jorge Francês. O Arísio, professor de matemática no Rio de Janeiro e mais manjado que nota de um real, morava na esquina de Barão com Henrique Dumont e mais manjado que ele só a Francis, sua filha, que era uma das gostosas da praia.
Aliás, a praia tava cheia de gostosas, que iam desde a Helena- irmã do Maraca, passando pela Ângela Rabelo, Jacqueline, Sofia, Kátia, Mary Pfeiffer, Isa, Anjinha, Gláucia, Patrícia Travassos, Josélia, Beth Benchimol e muitas mais que povoaram meu imaginário.
Eu, já casado, morei na Rua Maria Quitéria 68, mudei para a Rua Maria Quitéria 18 e, quando me separei, voltei para a casa de mamãe, na Borges de Medeiros em frente ao Jardim de Alah.
Nesse apartamento, aconteceu uma das coisas tragicômicas da minha vida. Na noite da última briga, quando a Ana me disse que não tínhamos mais nada a ver e que ela estava namorando o Zé Emílio, resolvi dar uma volta para colocar as coisas dentro de meu armário cerebral.
Depois de dizer para ela que, já que ela tava namorando o cara, a melhor coisa que ela fazia era procurar um local para ir dormir com ele( Fiz o cara vir de Bangu para pegá-la, he!he!he! E de ônibus! Isso em 1977 era viagem intermunicipal, cara!). Como eu era conhecido por resolver minhas diferenças no braço( daí o apelido Guerra), o cara veio voando, maninho! E depois de eu ver, com meus olhos, ela sair fora, resolvi ir comer uma carne na Carreta.
Chegando lá, quem eu deparo só numa mesa? Raul dos Santos Seixas e sua guitarra, como se tivesse vindo de uma apresentação. Ele, me vendo, fez sinal para sentar com ele. Papo vai, papo vem, Rauzito me sai com a seguinte vinheta: “A Glória me pegou com um brilho em casa, jogou fora a coisa e me expulsou de casa, cara! Aí, peguei a guitarra e saí. Estou sem um puto, sem lugar para dormir e eu não sei o que fazer”. Olhei para a mesa e vi uma garrafa de Orloff pela metade.” Vou ter que morrer nesse álcool”, pensei e aí perguntei se ela já tinha comido. Disse que não. “Então vamos pedir, cara”, falei e continuei o papo.
Três horas depois, consegui- não sei como- rebocar o Raul até lá em casa. Apesar de ser pertinho da Carreta, tinha uma Prudente de Morais no meio e atravessar aquela porra de rua era difícil. No mesmo ponto que atravessamos, o filho do Sílvio Caldas tinha morrido dois anos antes.
Antes da capotagem, ainda tomamos meia garrafa de Johnny Walker que eu tinha em casa. Acordei no dia seguinte com um telefone e uma gringa falando: “Gloria calling. Raul is There?”. Falei que sim e perguntei como ela tinha descoberto o meu telefone. Ela falou que o Garrincha( maitre da Carreta) tinha dado, pois tinha visto Raul sair comigo. Depois que ela veio pegar o Raul, não sem antes ir pagando uma geral daquelas, tanto nele quanto em mim, resolvi fazer minha mudança.
Dei um toque numa prima distante, na qual eu dava uns amassos de vez em quando, para me ajudar. Botei minhas coisas no Chevette dela, deixei a chave com o porteiro e, antes de jogar tudo na casa de mamãe, fomos até o Agris Palace Hotel ( na Farme de Amoedo) para uma bem gostosa. Só depois é que eu pensei que Ana poderia também estar lá. Mas aí, morreu Maria e foda-se, sabe cuméquié?

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