sexta-feira, 13 de junho de 2008

Yesterday Papers

Ontem, antes de cair no sono, fiquei matutando no escuro se é ou não é interessante a mim mesmo criticar e apontar defeitos naquilo que li e ouvi nesses meus últimos 45 anos de janela. Só uma coisa eu nunca fiz. Ignorar e falar mal. Nunca dei uma de José Ramos Tinhorão. Esse conseguiu falar mal do disco de Milton Nascimento com Wayne Shorter sem ouví-lo. O que aliás, guardando as devidas proporções, considero uma das grandes histórias contidas no “Não ouvi e não gostei”.
Já alternei ódios intelectuais extremos por Jorge Mautner(“Narciso em Tarde Cinza”) e Wally Salomão(“Me segura que eu vou dar um Troço”) com total indiferença. Depois, rotulei-os como dois males necessários ao desenvolvimento de uma contracultura tupiniquim, se é que isso aconteceu no país em algum tempo, nas cinco últimas décadas do século XX.
Ouví ví e lí material completamente indigente como Sergio Bandeyra, Carlos Lee, Luiz Carlos Porto e Paulo Coelho, como ouví, lí e ví material bom de Ernesto Bono, Paulo Gomide, Luiz Carlos Maciel, Lulu Santos, Ezequiel Neves, Charles Bukowsky, Paulo Francis, Ben Fong-Torres, Jan Wenner, Pedro Alexandre Sanches, Artur Dapiéve, Brother e Antonio Carlos Miguel. Por outro lado, nunca levei em consideração material escrito por Nelson Mota, Ary Vasconcellos e toda uma dita crítica flutuante e gravitacional existente na periferia.
Estive presente à Redações e mais redações, desde a Rua Marques de Caravelas até a Rua Equador, passando pela Rua da Lapa, Rua do Russell e indo até a Rua do Livramento. Visitei assessorias na rua Itaipava 44, rua Santa Clara 50, rua Mena Barreto 151, rua Visconde do Rio Branco 50 e Rua Alice 171. Em suma: trabalhei pelo Rio todo e andei meia cidade na cata de material de trabalho. Nem quando fui office-boy de meu pai andei tanto pela cidade maravilhosa. Exemplo: Cês sabem onde é a Rua Desembargador Viriato? É aquela ruazinha espremida entre o consulado norte-americano e o prédio ao lado, onde ficava a sala de exibição da Paramount. Aí eu me pergunto: valeu o esfôrço?
Valeu, pois assisti a muita coisa que hoje eu leio deturpada no texto de pessoas que apenas ouviram falar e dou boas risadas. Caí na gargalhada quando li a “biografia” de Tim Maia como sei que vou rir até perder a respiração com qualquer coisa escrita sobre Raul Seixas. Já vindo na contramão temos a biografia de Roberto Carlos, bem escrita e realmente muito bem apresentada. Não sei como o Roberto deu aquele chilique. Coisa de gay, né mesmo?
Só sei que fui dormir tranquilo e sem remorso de ter falado mal daquele trabalho cometido pelo Som Imaginário- aquele aborto eletrificado que só serviu mesmo para atuar como banda de apoio de um Milton Nascimento em início de carreira- este sim, um moderno naqueles tempos difíceis.

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