quinta-feira, 19 de junho de 2008

Berry Rides Forever

Quem fez a resenha da apresentação de Chuck Berry ontem em Sampa nunca deve ter tido maior contato auditivo com o velhinho nem sabe detalhes a respeito dele. Chuck nunca deu importância a afinação, acompanhamento e acompanhantes em toda sua carreira. Segundo suas próprias palavras, “quem não conhece as músicas de Chuck Berry”?
Partindo dessa premissa verdadeira, pois quem não conhece Berry não conhece picas de rock, não importam os títulos nem o state of art do acompanhamento. Basta um riff de entrada e a afinação em mi e estamos conversados, pois quase todas as músicas de Chuck são quadrados obrigatóriamente passando por mi, mi 7ª, lá e sí. E, para acompanhar isso, qualquer músico serve. Foi gozando Chuck Berry que Miles Davis fez o seu célebre comentário “Qualquer um que saiba três acordes pode pegar uma guitarra, subir num palco e se apresentar. Experimente fazer isso com um violino”. E, utilizando essa gozação em proveito próprio, Berry se aproveitou da facilidade de assimilação de sua música para usar músicos locais para acompanhá-lo, deixando de lado a preocupação de ensaiar uma banda de apoio e tê-los sob contrato. Na verdade, essa preocupação era de quem o contratava, já que ele sempre comparecia, acompanhado da guitarra e mais nada. Só nesses últimos tempos é que seus filhos o têm acompanhado, mais devido a razões de idade e saúde do que outra coisa qualquer.
Mêdo? Essa palavra não consta de seu vocabulário. É bom lembrar que, durante sua carreira, Chuck já dormiu em trailer, bordel e motel de estrada, só para citar alguns lugares agradáveis pelos quais se hospedou para não ter que gastar mais que o necessário. Sua "mão fechada" é folclórica.
Uma das únicas vezes em que Chuck ensaiou com uma banda de apoio foi nas gravações daquele filme que Keith Richards fez sobre a comemoração de seu enésimo aniversário em St Louis. E, mesmo assim, de uma forma bem renitente. A vida de Chuck é o estereótipo do roqueiro cantado por Bo Diddley em “Have Guitar, Will Travel”, numa paródia roqueira ao seriado televisivo “Have Gun Will Travel”( aqui passou com o nome “O Paladino do Oeste”).
Do mesmo jeito que o Rádio Taxi se apresentou em todas as feiras e bibocas existentes em solo tupiniquim, Chuck Berry se apresentou em todos os lugares possíveis dentro do solo norte-americano.”Conheço esse país melhor que qualquer presidente que ele já teve”, garante ele. Pode ser que sua resistência física não seja mais a mesma com a qual ele saiu de St Louis, mas o pique da sua música vai continuar eterno. Long Live Chuck! Long Live Rock!- com a saudação de um Pete Townshend agradecido pela influência e que nunca teve de se valer de uma composição de Berry para seus repertórios de banda.

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