quarta-feira, 18 de junho de 2008

Diferenças Definidas e Definitivas

Quem lida com áudio e música e é egresso da era analógica vai sentir bastante saudade dos antigos tempos. A diferença entre a digitalização e a analogia é definida pelo fim da modulação gradual e definitiva no 0(sem conteúdo) e 1( com conteúdo).
Qualquer fade(seja in ou seja out) não se realiza mais com a suavidade que era possível anteriormente num equipamento analógico. Num equipamento digital ou no áudio digitalizado, a passagem do 0 para o 1 e vice-versa sempre é abrupta. Acabaram-se as graduações. Sobraram só os Levels( níveis). O que era antes um defeito da equalização gráfica( sempre preferí a paramétrica) hoje é a constante do áudio digital. Não existe mais qualquer tipo de meio termo.
Quanto a qualidade obtida, a melhoria é inegável já que a reprodução é perfeita- desde que o digital seja o padrão do princípio ao fim. Reproduzir ou remasterizar áudio analógico em formato digital nunca dá certo. A maioria das vezes, a tentativa termina em tragédia auditiva.
Senti isso na carne agora, no digitalizar a minha discoteca vinílica. A primeira grande tragédia foram os Beatles. Todo o material mono- gravado entre 62 e 66, foi digitalizado sem maiores problemas. O recanalizado para estéreo ou o já gravado nesse padrão sofreu uma modificação, no mínimo, curiosa: a mixagem original foi completamente alterada sem maiores razões. Assim, instrumentos que estavam obscurecidos tiveram sua participação realçada e , em algumas faixas, os vocais foram simplesmente suprimidos! Isso aconteceu nas versões em alemão para “I Want to Hold Your Hand” e “She Loves You”. “ Across the Universe” ficou bem mais psicodélica e em “Come Together” um sintetizador moog apareceu não sei de onde fazendo a linha musical. Incrível! Agora: é nessas horas que você sente que clássico é clássico e não se fala mais nisso. Essa classificação fica para “All my Loving”- em minha opinião, a faixa mais perfeita gravada pelo quarteto e a qual eu imponho ditatorialmente como o melhor single deles.
Outra tragédia, em minha opinião de profissional do assunto, vai acontecer com o rádio digital, mais particularmente nas rádios em processo de automatização- futuro das rádios musicais. Nelas, não haverá mais nada mixado. Todo o conteúdo terá interrupções mínimas e sensíveis àqueles que, como eu, são originários da era analógica. Assim,a passagem de uma fala para uma vinheta ou dessa última para a notícia, a comercialização, ainformação de prefixo e tudo o mais terão essas interrupções mínimas entre 0 e 1 e que, garanto, vão encher o saco.
Já com as rádios operadas manualmente, esse problema dificilmente ocorrerá e, acredito, que esse fator será determinante de audiência, pois a diferença entre as apresentações será gritante. Em minhas previsões, a procura de mão de obra especializada não vai cair e haverá sempre uma oportunidade para o desabrochar de talentos e um lugar ao sol para os mediocres, pois mesmo suas falhas gritantes vão superar a perfeição fria do maquinário. Isso eu espero que aconteça. Como nada é definitivo.....
Definitivo apenas é o estado de coisas, já que não existe a mínima chance de se retornar a analogia. O custo para esse retrocesso não vai compensar e a qualidade digital nunca será atingida. Nada será como era e isso, eu sei que vai acontecer, queiram os luditas ou não queiram.

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