domingo, 18 de maio de 2008

Cabeça Feita

Quem leu o segundo caderno de “O GLOBO” desse domingo, todo dedicado ao ano de 68 e a contracultura, deve estar se perguntando a ausência de Jimi Hendrix nessa discoteca básica que me fêz a cabeça. Assinalo que aquele que reinventou a linguagem das guitarra foi apenas umas consequência do que vou falar abaixo, tão inevitável quanto saltar do bonde e deixar o progressivo ir em frente após “The Dark Side of The Moon”.
As capinhas na montagem que ilustra esse post tem a ver com práticamente o escopo que a música do poprock significou na formação da minha cultura musical. Cada um desses Lps foi um tijolo que dividiu e separou planos daquilo que eu entendia ou pensava entender a respeito de cada timbre ou de cada nuance de um certo detalhe na torre de babel sonora que ia se formando. O resultado final foi nenhum, apenas uma grande piração que me deixou com uns 2.000 vinis importantes e umas 600 raridades fantásticas, as quais eu ouço sempre que posso e nunca me canso disso.
“Mr. Tambourine Man”(The Byrds) foi um dos poucos discos dos quais eu gostei de todas as faixas. Foi nele que eu conheci Bob Dylan e foi nele que eu ouvi harmonias vocais um pouco diferentes daquelas que eu conhecia com os Beach Boys. Além da faixa-título, ouvia sem parar “The Bells of Rhimney” e “All I Really in it Wanna do”. Graças a ele, comprei práticamente toda a discografia oficial da banda. Quanto a “The Notorius Byrd Brothers”, esse me mostrou um Byrds longe de Dylan e com outras preocupações como em “Artificial Energy” e “Goin Back”.
O “12X5” foi o Lp que me fez ver os Stones como uma opção para alguém que gostava mais de Rock and Roll do que canções pop comportadinhas estilo Beatles em início de carreira. Tanto a versão de “Around and Around” com aquele piano fantástico de Ian Stewart quanto “Empty Heart” e “Under The Boardwalk” eram diferentes, finalizando com “It´s All Over Now”, que o grupo aparecia interpretando no filme do T.A.M.I. show de 64, que levou aqui com o título “No Reino do Yê-Yê-Yê”.
“Sgt Pepper´s” me levou a um Fab Four completamente fabuloso mesmo! Nada soava como antes, incluindo guitarras, baixo e percussão. Para um disco gravado e mixado em oito canais( fui saber disso quase uma década mais tarde) a sonoridade era como um grupo com 100 integrantes. Tanto “Sgt Pepper/With a Little Help” quanto “She´s Leaving Home” e “Lovely Rita” me marcaram profundamente. Além disso, dava para acompanhar as letras pela contracapa, tinha brinquedinho para montar, etc e coisa e tal.
“Sketches of Spain” foi a minha apresentação a uma maneira diferente de se tocar a música original, principalmente o concerto de Aranjuez, do qual eu conhecia apenas a versão vulgar gravada pelo Richard Anthony. O trompete de Miles soava como um assobio de vendaval correndo pela pauta da harmonia, numa impressão sonora que eu jamais tinha ouvido até então. O disco era do Daniel Azulay e está comigo até hoje. Mais tarde, arrumei outro em melhores condições e continuo a ouví-lo sem parcimonia, já que, em cada audição, eu sempre descubro um fato novo.
“Atom Heart Mother” é para ser ouvido sem interrupções do princípio ao fim. Com a versão CD isso se tornou possível. Antes disso, eu montei o álbum numa fita C90 para que isso acontecesse e me levasse ao delírio completo. Foi nele que descobri como se chupar um tema para se fazer uma abertura sem retoques(vide o tema antigo do “Jornal Nacional”).
“Lucky Man “ e “In the Court Of Crimson King” tem, para mim, um traço de união: os vocais de Greg Lake. Todos os dois álbuns significaram o descabelamento ao qual o improviso pode chegar. No caso de Robert Fripp, um improviso escrito(“21st Schizoid Man”). Já em Keith Emerson , o ensaio de uma protofonia completa(vide “Tank”), descambando em algo completamente palatável(“Lucky Man”), finalizando com um exercício escalar completamente sintetizado.
Apesar da falta de nexo se o fato for examinado isoladamente um por um, a associação de idéias que o “Led Zeppelin IV”, o primeiro dos Ramones e a compilação dos 78 gravados por Robert Johnson fazem em minha cabeça é de uma volta as orígens. No LedZepIV, Jimmy Page dá uma demonstração de como o rock pesado pode coexistir com melodias de uma suavidade ímpar. Já o punk dos Ramones coloca a garagem dentro de um concert hall. Tanto os ingleses quanto os novaiorquinos fazem dos três acordes um jeito de existir musicalmente. E Robert Johnson mostra onde os três acordes tiveram início.
Finalizando, falo do segundo LP do qual gostei de todas as faixas além da capa. Acho a gozação feita com o obelisco de Stanley Kubrick uma das grandes peças pregadas por Pete Townshend, que faz completo sentido com a letra de “Won´t Get Fooled Again”, hoje usada e reusada na trilha musical do seriado “CSI”. “Who´s Next” é o album mais significativo dos anos de chumbo dentro da minha visão meio apocalíptica sobre o período. Se eu não podia me exprimir em Português, contraculturalmente eu usei o inglês que me colonizava e assim conversei de igual para igual. Ponto final.

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