sábado, 19 de julho de 2008

Marginália

A montagem que ilustra esse post são as fotos da capa do disco mais marginal e aclamado da história do Rock. Produzido por um marginal, ensaiado e gravado por outro marginal e sua mulher de malandro( adorava levar porrada- tá na biografia escrita por ela!) e fotografado por mais um marginal.
Esse disco("River Deep, Mountain High") vai fazer 40 anos de lançamento e, até o momento, não se produziu porraloquice nenhuma que barrase esse “Os Dez Mandamentos” do vinil. Cecil B de Mille manda lembranças, pois a produção dessa bolacha, além de cara, ficou bem aquém do que todos esperavam. Exatamente como sua paráfrase cinematográfica.
Diz a lenda que”.......corria o ano de 68,.... one day, Ike & Tina Turner passavam com sua tour pelo Fillmore West, quando Phil Spector passou na casa de espetáculos de Bill Graham para, digamos, “ver um ensaio”........Depois de “ver o ensaio”, Phil marcou uma reunião com Ike Turner em sua sala no Brill Building, alí pertinho.....dava para ir a pé......
20 gramas depois, Ike e Phil chegaram a um acordo, Ike & Tina gravariam 12 faixas. Três produzidas por Phil e nove produzidas por Ike. A assinatura da produção ficaria para Phil, que entraria com três faixas- na parceria ele, Ellie Greenwich e Jeff Barry. As outras nove seriam escolhidas por Ike.
Com o projeto montado e tudo escolhido, a Mother Bertha( empresa e editora de Phil) começou a bater as portas das gravadoras oferecendo-o. Quem topou bancar a coisa foi Mr. Jerry Moss, “Big Boss” da A&M. Ele e seu sócio, Herb Alpert, já conheciam Phil de outros carnavais e Ike era um mito. Porque não arriscar?
O agito que a mídia fez em volta da coisa parecia, guardando as devidas proporções, como se Mick Jagger tivesse sido chamado para cantar nos Beatles! A esperança era tanta que o disco saiu com um advanced de 500 mil cópias colocadas em pontos de venda por todos os Estados Unidos! Nem o “Seargent Pepper´s” fora tão badalado. A imprensa teen se dividia entre o lançamento Jimi Hendrix, o escândalo Jim Morrison e o previsível estouro de Ike & Tina Turner! Phil Spector estava de volta em grande estilo!
O rádio norte-americano estava prestes a tocar novamente sinfonias destinadas aos ouvidos de teenagers. Era assim que Phil Spector definia o material que produzia. Phil era o midas do disco. Todas as suas idéias eram disco de ouro. Até seu disco de natal vendera mais de um milhão, suplantando “White Christmas”, líder de vendagem desde 1937- seu lançamento- até 1963. The Ronettes ainda eram sucesso. The Righteous Brothers? Então?
Quando “River Deep, Mountain High” foi lançada, a resposta foi xôxa. A faixa tinha mais de três minutos- excessivamente longa para as rádios top 40. O “Wall of Sound” costumeiro de Phil dessa vez estava excessivo. Se o de “Baby I Love You”(Ronettes) transformava o estúdio em mais um instrumento musical, o de “River Deep” era uma embolada eletrônica e com excesso de reverberação. Parecia mesmo era uma orquestra pop com aparato sinfônico acompanhando alguém( Tina) que gritava no meio de uma massa sonora. A letra era muito dividida na métrica para caber na sequência. O refrão era meio confuso, com o vocal sumido dentro das cordas. Haviam refrões melhores na parada (“Light My Fire”, "Goin Back" e “Bend Me Shape Me”).
O público não entendeu bem o apelo e a faixa começou a perder a heavy rotation em execução. O New York Mining Disaster, cantado anteriormente pelos Bee Gees, acontecia um ano e meio depois com Phil Spector. Não houve retôrno de prestígio, apesar do disco ter se pago, zerando os custos de produção. O mercado esperava um grande estouro. Uma resposta pop a sucessos que o rock vinha impondo e se equilibrando como um novo hitmaker. E quanto ao posto de fábrica de sucessos, New York vinha perdendo terreno. Havia no horizonte a ameaça de Detroit, sede da Motown Records, que se firmava como uma gravadora na qual uma série de Phil Spectors negros(Berry Gordy, Lamont Dozier, Brian Holland e Norman Whitfield) faziam música para uma platéia branca que antes consumia o Phil original. O Jackson Five, The Supremmes e os Temptations reinavam absolutos.
A galinha dos ovos de ouro havia fugido do galinheiro de Phil. Sua volta não fora triunfal. “River Deep, Mountain High” foi para a estante, bem ao lado de “Pet Sounds”, da autoria de outro gênio incompreendido, Brian Wilson. Phil, acometido de depressão, faz uma temporada num sanatório, tal qual Brian um ano antes. Sem trabalho, Phil, para continuar em evidência, aceita participar como extra do filme que seu amigo e autor das fotografias de capa do fracasso, Dennis Hopper, estava produzindo em Los Angeles( Phil é o traficante para o qual Peter e Dennis vendem a heroína em "Easy Rider").
Phil nunca mais se recobrou. Tentou uma volta em “Let It Be” e depois com “Rocknroll Radio”( The Ramones). Nada aconteceu. Agora, Phil parece que vai fazer a última coisa que faltava em seu currículo rocker. Curtir uma temporada no Xilindró.
Do pessoal envolvido em “River Deep, Mountain High”, ele era o único que faltava. Todos os três( Ike Turner, Phil Spector e Dennis Hopper) podem ser considerados ao pé de Baudelaire- cuja vida pessoal nunca refletiu as possibilidades artísticas ou vice-versa, naquela contradição que o levou à total degradação e – por muito menos que o necessário – Maiakovski ao suicídio. Confusa a explicação? Tá mesmo.
Voltando a Phil, o gênio está sendo acusado do homicídio culposo de uma garota de programa que lhe prestava favores e que morreu de overdose(sempre ela!) em sua casa numa flagrante omissão de socorro. O processo está correndo e ninguém sabe no que vai dar.

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