quarta-feira, 24 de junho de 2009

Schultz foi o Chuck Berry dos cartoons. Da mesma forma que as letras de Chuck falavam da rotina das ruas e do dia-a dia(“Memphis Tennessee” é um grande exemplo disso), Schultz transpôs a vida diárias para tirinhas de três desenhos. Mais pop impossível. A depressão de Charlie Brown, Lucy- a garota chata da rua( quem já não teve um pentelho desses por perto que atire a primeira tigela de comida para cachorro), Linus – o irmão mais novo, genial e dependente físico. Sem seu cobertor, ele é um zero a esquerda. Mas, atrás de um livro ou pensativo, ele dirige sem perceber a vida de Charlie Brown, assessorado pelos vários heterônimos de Snoopy.
Tudo se encadeando na vivência normal da rotina de um grupo de meninos, meninas e o cachorro de um deles. Nada poderia ser mais brilhante para metaforizar o conflito de gerações numa das sátiras que fizeram a paródia do enquadramento, do ideal americano e do way of life junto a a contracultura dos anos 60/70.
Eu comecei a acompanhar a tira quando ela ainda se chamava “Minduim” e fui acompanhando a transformação entre protagonistas, assistindo a Snoopy virar o híbrido e Charlie Brown encontar um coadjuvante a altura.
Esse Híbrido é de deixar Fernando Pessoa com inveja quando se trata de heterônimos. Snoopy uma hora assume ser o ilustre causídico(“Eu não vim aqui para ser insultado”), pode ser Joe Cool no campus(“Sempre se arranja uma pizza”) como pode ser o Barão Vermelho(“Que tédio esse campo de pouso na França”), assume ser um grande escritor(“Era uma noite escura, tempestuosa e fria”), sempre tendo seu original reprovado pela editora Lucy ou pode ser apenas ele mesmo, com a tigela na boca pedindo comida para um dono que faz apenas.....(ai)......
Segundo estimativas da United Media (empresa responsável pelo licenciamento da marca), as tirinhas de Snoopy são publicadas em mais de dois mil jornais em 75 país e possuem, em média, 330 milhões de leitores diários. Só no Brasil, são 20 marcas licenciadas e cerca mil itens. A marca fatura no país cerca de US$ 60 milhões.
Mas, nem só de Snoopy, Charlie Brown, Lucy e Linus vive a tirinha. Pig Pen é o estereótipo do garoto sujo e quem não toma banho. Teve tanto apelo que virou o apelido daqueles que não se dão bem com a limpeza. O apelido chegou até Ron McKernan, multiinstrumentista do Grateful Dead e que, segundo as más línguas não era lá chegado a tomar um banho. Schroeder é o gênio musical com seu piano de brinquedo, assediado por Lucy o tempo todo. Pepper Patty é a garota sem identidade sexual, reprimindo uma paixão avassaladora por Charlie Brown, sempre atrás de seu eterno amor platônico, a garota de cabelosruivos.A relação entre o cãozinho Beagle mais carismático do mundo e seu dono romântico e inseguro vai completar 60 anos em outubro. Nas livrarias, o ano Peanuts, deve começar com o lançamento de uma antologia com todas as tirinhas do Snoopy, quase 200 mil.
Um dos dias mais tristes da minha vida foi o dia em que, como eu, todos os fãs se emocionaram com a tira onde Snoopy e Charles M Schultz( ele mesmo, em caricatura!) se despediram, encerrando todo um delírio. Foi como a perda de um ente querido- fazia parte da família. O câncer que consumia o autor não deixava mais ele desenhar a contento. Tenho essa tira guardada e plastificada como marcador de livro.

Um comentário:

Cris V disse...

Bom dia, Guerrinha velho de guerra!
Eu. tb. sempre fui louca por esta turma e não foi à toa que escolhi um beagle para dar de presente para minhas filhas lá pelos idos dos anos 80. O Snif, esse era o nome dele, era o Snoopy em pessoa. Suas reações eram as mesmas, assim como sua sagacidade, esperteza e inteligência. Mas era tb. um fujão, amava a liberdade e, por contta disso, me aprontava poucas e boas. Um dia ele sumiu e depois de mto. procurar, colocar anuncios nos onibus da cidade e até na rádio, conseguimos localizá-lo. Vc. acredita que quando cheguei lá, ele não me deu a mínima? Feliz da vida solto na rua com um monte de outros cães, nunca o vi tão feliz. Algum tempo depois, minha vida deu uma das guinadas que de vez em quando me apronta e resolvi entregá-lo para esta família que o havia encontrado. Um ato do qual me arrependi amargamente, de tanta saudade e culpa... Um beijo