È isso mesmo. Nunca consegui, por razões de dependência física, morar longe de uma banca de jornal. Foi nela que eu comprei “Epopéia” – uma revista da Brasil América que trazia, quadrinizados, capítulos da história geral. Foi nela que eu comprei grande parte do meu acervo cultural. Principalmente quando elas começaram a vender livros mais barato que nas livrarias, trazendo coisas mais interessantes dentro da minha visão.E quando você tinha o jornaleiro mais como amigo do que empurrador de produto, aí o negócio ficava mais interessante. Lá pelos anos de 62/63, foi o seu Antonio, jornaleiro com uma banca na esquina da Afrânio com Ataulfo de Paiva, que me apresentou ao “Jornal do Brasil”. Eu, com 12 anos, estava começando a ler colunas e coisas de cultura e o JB tinha o “Caderno B”, que trazia de tudo um pouco e com textos interessantes até para mim, iniciando a adolescência. A mágica das letrinhas se mexia na minha cabeça. Foi quando descobri que não conseguia mais não ler as coisas. Onde eu botava os olhos – fosse o que fosse- eu lia automático.Bastava passar os olhos.
Comentei isso com meu pai e perguntei o porquê dessa automação e ele me disse que era assim que começavam as discussões filosóficas. Conforme suas palavras, essa minha indagação era o início do método Socrático de filosofar. E foi mais longe ao assinalar que: se devemos filosofar, filosofemos para provar que devemos filosofar. Se NÂO devemos filosofar, filosofemos para provar que NÃO devemos filosofar. Isso já seria o método Cartesiano de ver as coisas. E, partindo de Sócrates e Descartes, começamos a conversar de uma forma que eu não conseguia com meus amigos de rua.
Fiquei bem mais ligado à banca de jornal – onde tudo saltava aos meus olhos. E comecei a ficar seletivo naquilo que falava ou externava às pessoas.
Quando a banca de jornal começou a vender discos, aí a piração foi total. Comecei a gastar um dinheiro absurdo toda a semana. O jornaleiro virou traficante de informação. Comecei a assumir dívidas brutais com os jornaleiros da vizinhança.
Com o passar do tempo, essa febre foi passando, já que os próprios produtores daquilo que eu consumia começaram a cair no marasmo e na banalidade, ao descontinuar produtos interessantes e vestir com embalagens novas produtos já lançados anteriormente, enganando fieis compradores e dependentes de seus produtos, que foram curados da dependencia na medida que os produtos dignos de compra começaram a escassear.
Quanto ao jornaleiro, a minha relação com eles continua a mesma, pois não são eles os culpados do marasmo. Nem a crise. A culpa dessa seca está na cabeça que assumiu posição de mando sem ter estofo para isso. Virou o poder decisório sem saber como decidir. Isso acontece em toda a indústria cultural de hoje.
É por isso que CD não vende mais, livro está em crise e o jornal vai fechar. Ficou ruim para a cultura, pois quem produz cultura não tem a cultura necessária para isso. Seja na redação, na edição e na produção gráfica. Muito triste.

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