Hoje, na hora em que meditava no vaso, pensei: Porque não os anos 80? Foram os anos em que trabalhei na Antena Um, tive o mundo e a mídia nas mãos, ganhei uma grana preta e joguei ela toda fora, fiz um monte de bobagem e ganhei coragem para toda essa viagem que relato, num texto de fino(?) trato. A década foi um arraso, tanto para mim como para muita gente. Foi assim que fiquei quase demente e virei meio poeta meio bicho, grudado na vida que nem carrapicho. Lá vai!Os anos 80 devem ter sido a década na qual a mídia cultural e a indústria fonográfica ganharam mais dinheiro em toda a sua existência. Foi a época em que se desenvolveu um sistema modelado em promoções, visando a comercialização do artista como produto, explorando todos os nichos e segmentos onde ele pudesse ser colocado. Foi a época em que a franquia se estabeleceu como propriedade intelectual rentável e sob parâmetros de atuação dispostos e dirigidos pelo proprietário. Foi a época McDonald- Menudo- Barbie. Foi nos anos 80 que a maior franquia religiosa conhecida – a IURD – foi desenvolvida e começou a deglutir a mídia quebrada que não soube se unir em conglomerados. E quando o conglomerado era interessante, uma oferta única, irrecusável e indiscutível, abocanhava-o para servir a uma fé discutível e nebulosa. Foi assim com a Rede Record de Televisão e com a Rede Atalaia de Rádio. Esta última era uma rede de rádios musicais AM, todas em primeiro lugar nas quatro praças em que atuavam(Curitiba, Belo Horizonte, Londrina e Uberlândia). Custou 12 Milhões de dólares cash à IURD, quase 40% acima de seu real valor de mercado.
O mercado vivia ao sabor de transações miliardárias e rotativas. Contratos e mais contratos de artistas eram feitos e comprados mediante fusões e cisões resultantes da dança de cadeiras entre executivos das indústrias do disco.
As multinacionais enxergavam o Brasil como o quarto maior mercado fonográfico, superior a Austrália e ao resto da América Latina( incluindo o México). A chegada ao Brasil da Ariola foi faraônica. Tinham vindo para vencer. De uma sentada só contrataram Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Marina, Chico Buarque de Hollanda, Kleiton & Kledir, MPB4, Toquinho, João Bôsco, Elba Ramalho e muitos outros de relativas grandezas. Também compareceram à divisão do bolo a Capitol, a Virgin e várias menores, cada uma querendo a sua parte de um mercado que ia dar mais ainda o que falar.
Dito e feito. Com a chegada à mídia do segundo capítulo do Rock Brasileiro, as vendagens cresceram em número. Se Gil havia vendido 686.000 compactos com a versão de “Não Chore Mais” e Dalto 1.200.000 com “Muito Estranho”, o LP “ao vivo” do RPM, produzido em cima de um show dirigido por Ney Matogrosso, bateria os 2.600.000 Lps vendidos. Havia aparecido alguém que, num único lançamento, vendera o mesmo que os Lps anuais de Xuxa e Roberto carlos somados!
Segundo os reports das gravadoras, o BRock era um sucesso. Vendia-se a média de 90.000 Lps por lançamento. Assim , numa tentativa de maximizar lucros, os brilhantes executivos tomam uma decisão temerária, recusada nos EUA por ser considerada anticomercial. Extinguiram os compactos. A partir dalí, só Lp. E, a partir dalí, o crescimento da pirataria.
Esse crescimento pode ser acompanhado pelo aquecimento da venda de cassettes virgens. A produção não atendeu a demanda e mais um ítem foi adicionado ao almoxarifado do contrabando. Principalmente as fitas c-90, que possibilitavam a gravação de três Lps ou a média de 36 músicas.
Como tudo no Brasil começa no fundo do quintal, a pirataria do disco saiu de dentro dos locais que, em teoria, existiam para dar suporte, divulgação e auxílio técnico à propriedade intelectual de um artista, a partir dalí denominado contratado. A denominada contratante, além de dividir de forma leonina a exploração dessa propriedade, ainda praticava atos lesivos, ilicitos e encobertos pelos executivos, que faturavam direitos nebulosos e comissões não muito bem explicadas para cadaato praticado em nome de quem teóricamente cuidavam dos interesses. São folclóricas e bem famosas as histórias dos discos piratas de Roberto Carlos, Odair José e Benito de Paula, com fotolitos roubados e fitas masters copiadas nos estúdios das próprias gravadoras que os tinham sob contrato por funcionários de confiança. A então Polygram foi obrigada a mudar sua fábrica de local por não conseguir evitar o roubo de material, que era enrolado em plástico impermeabilizante e jogado num riacho que descia em várias cachoeiras por um parque nacional.
Foi aí que, ao seguir a tendência dominante no mercado de língua inglêsa, alguns brilhantes executivos, para brilharem como geradores de lucros cortando custos, resolveram tomar outra decisão temerária, vistas por eles como apenas mais um corte. Uniformizar lançamentos com vistas ao mercado latino. Nesse mercado latino foram incluídos Brasil, México, Espanha, Portugal e toda a América Latina.
A direitiva era simples: gravar cada faixa em duas versões- uma em português para o disco no Brasil, outra em castelhano para o mercado latino e fotolitos, rótulos e releases em formato bilingue. Não é coisa de gênio? Pois é, né? Só que os públicos- alvos e certa parte da mídia recusaram a solução genial.
Enquanto a música brasileira tinha uma cobertura já estabelecida dentro e fora de nossas fronteiras, a música latina não tinha lá esse apelo e diversas rádios não tinham abertura na programação para esses gêneros que, quando eram executados, eram executados na madrugada- um horário morto para o chamado rádio vivo tupiniquim. E foi daí que começou a decadência.
Você que está me lendo pode ficar certo de uma coisa. A crise do disco começou aí. Começou no dia em que alguma mente brilhante achou que Cultura era que nem pasta de dente. Um produto vendável de maneira uniforme e com uma mãozinha promocional. Esqueceu que existem peculiaridades regionais. E isso é marcante. Influencia mesmo. Para demonstrar isso uma história:
A Kellogs lançou o sucrilhos na Turquia com uma campanha promocional estapafúrdia. Eram outdores para todo lado em Istambul, Ankara, Andrinopla e outras cidades. Na tabuleta, um garoto de fez segurava a caixa de sucrilhos com as duas mãos, sendo que a mão que se destacava era a esquerda. A campanha, bolada nos EUA, se esquecera de um detalhe. Os turcos consideram a mão esquerda impura, pois é com ela que limpam as fezes. E tudo que a mão esquerda toque fica impuro como consequência. Resultado: a campanha foi um fracasso. Ser globalizante e neo-liberal as vezes dá nisso......

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