sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Clara na Rua Curitiba

Eu tive um sonho com a Clara Nunes. Ela tinha voltado do céu e eu a havia encontrado, desacordada, vestida toda de branco, numa calçada da Rua Curitiba, perto do Mercado Central. Exatamente naquela calçada do Edifício “Cidade de Minas”. Notei aquela figura conhecida, toda de branco, com aquele bom cabelo piaçava, amarrado com uma tira de renda branca. Cheguei perto, olhei e pensei: - “ O que é que a Clara ta fazendo deitada aqui na Rua Curitiba, caralho?” Cheguei mais perto e ela parecia dormir. Dei uma sacudida no ombro dela e ela acordou.
“Guerra, que tu ta fazendo aqui?” Falei que tinha mudado para Belo Horizonte em 84, que a Antena 1 tinha me mandado para cá, patati, patatá. Conversa vem, conversa vai, estávamos sentados num boteco, na esquina de Curitiba com Augusto de Lima- aquele boteco que o cara da ROTAM matou o taxista e que hoje não existe mais, derrubado para fazer um estacionamento.
Sentamos atrás de um balcão e um cara botou duas pingas para nós. Ela me contava coisas de lá, como eram os Orixás e eu fofocava daqui, dizendo que Gisa tinha sumido, Beth tava um bonde de gorda e tinha sido expulsa da escola e a marrom tava andando com uma peruca horrível e tava pior que o Tim Maia como geladeira vestida de gala.
“Porra, cara, a gente não se via há um tempão”, disse ela. Falei que a gente não se via desde que ela tinha casado com o Paulo César- aquele chato. “Por que aquele chato?”. Só porque eu era branco não podia tocar surdão no grupo que a acompanhava? Qual era a a daquele bobalhão, perguntei de novo. Afinal, quem tinha me chamado fora o Adelzon. Ele não ia me chamar a toa. E o Ivan Paulo tinha aprovado. Qual era a dele? “Por causa da bronca, nem fui ao teu enterro”, assinalei.
“Ainda bem que tu não foi naquela coisa”, ela respondeu. “Tinha um monte de fariseu lá que eu detestava”, falou. “ Também, mereci aquilo. Quem mandou eu dar aquela vacilada?”
Aí, não me contive e fui falando. Onde é que ela tava na cabeça de ter filho? O Orixá não disse que ela morria se ela tentasse? Prá quê fazer uma merda daquela?
“Eu supliquei, pedi de joelhos”, disse ela. “Mas ele não quis saber: disse que aquela crendice tinha tomado conta de minha pessoa e, se eu não quisesse ser mãe, ele ia embora”.
“ E tu foi acreditar naquela figura? Ele vivia as tuas custas. Nunca ia abandonar a galinha dos ovos de ouro, falei exaltado e vi que tinha apelado pesado, pois ela prorrompeu num choro convulsivo. Senti que tavam batendo no meu ombro e era o cara me oferecendo outra pinga. Bebi de um tapa no beiço só e acordei num susto com o bonitinho- meu cachorro- me lambendo a cara que nem viralata lambe cara de bêbado.
Fui ao banheiro, pensei um pouco( “ Encontrar a Clara deitada na Rua Curitiba? Onde é que já se viu!......”), lavei a cara e fui levar o bonitinho para dar uma volta com a roupa que tinha dormido.

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