terça-feira, 11 de novembro de 2008

Tempo de Estio

Acordei de saco cheio hoje, resolvi curtir uma de horror e escrevi esse texto acabando com os anos 70. Teve gente que viu aquela década explosiva do jeito que vai abaixo. Teve gente que, como eu, tava preocupado em viver tudo tão intensamente que só foi se dar conta de erros e acertos muito mais tarde. E entre um barato qualquer, resolvi curtir qualquer barato. Eu e um amigo, Vitor Larica, tinhamos um refrão “Qualquer Barato é um barato Qualquer” para um grande hit, mas nunca saímos dele(refrão) e ficamos naquilo. Uma tremenda curtição. Só isso.
A primeira pessoa que eu me lembre de falar no dia a dia as palavras “barato” e “curtição” no sentido lato giriático( de gíria- essa foi du caraca, heim?) foi o Carlos Henrique Novais, um amigo de rua de um tempo de Leblon no qual o Roberto Bonfim era o “Monstro”, Baden Powell namorava a Teresa Drummond e odo mundo se encontrava na praia, nas sessões das 8 de sexta no Cinema Leblon e das quatro da tarde de domingo no Miramar.
Mais tarde, o barato ficava nas dunas alí perto do Jardim de Alah, que dividia a praia em duas. Do lado de Ipanema ficava a Jamaica e do lado do Leblon ficava a Bahia. A Jamaica ficava do posto 10 até a Paul Redfern, com uma “terra de ninguém” vindo até a Epitácio Pessoa- e nessa “TN”, o couro comia e ninguém via. O fumacê levantava o maior futum. Tinha sempre alguém fumando algum e, atrás da duna era mole. Dava prá correr e entrar na água ao menor sinal de aperto. Curtição doida.
A Bahia era a praia da galera da cruzada. Ia do canal até a Pereira Guimarães. Da Pereira em Diante começava o Leblon própriamente dito, com um quebra coco entre a Rua Leblon e Carlos Góis, no início do cais arquibancada. Tremendo barato.
Quando a “intelligentsia” fez a apropriação indébita do barato e da curtição, tentou transferir os louros da invenção para a moçada lá do Pier. Só que o Pier tinha prazo determinado. Assim que acabassem as obras do interceptor, ele ia dar bye bye. No more vapor barato, no more pegação. Ia dar uma reviravolta. Tremenda rejeição.
O sentimento contramão começou com o fim da bossa nova e a chegada da bahianada de Londres. Entre os shows de Gil e Caetano no Municipal, Macalé & Soma no Teatro de Bolso e a aparição do Circo Voador houve um hiato que nem a nova interpretação de “Negro Gato” cobriu. Havia um buraco na porta principal de Gotham City e os vizinhos chamaram a polícia para acabar com o volume alto que o som imaginário insistia em tocar na festa do clube da esquina. Tudo se parecia com trocar seis por meia dúzia, nada dizendo nada e todos atrás de tudo sem achar aquilo que conviesse no que desse e viesse.
Os anos 70 no Brasil foram isso. Ficção. Mentiu quem disse que aquilo foi um tremendo barato. Se enganou quem garantiu que aquilo tudo foi uma tremenda curtição.
Como? Não havia liberdade de expressão. Não havia garantia individual nem habeas para nada. Ir e vir terminava em paranóia. Qualquer show, qualquer mostra, qualquer atividade podia ser interrompida pela polícia-pela “otoridade”. Uma obra de arte para ser divulgada tinha que passar pela censura. E quem era o censor para dizer se minha obra era boa , ruim , imoral, ilegal ou causadora de obesidade? Como disse Caetano, foi um tempo de estio. Demorou para chover na horta. E como!
Nós fomos a única sociedade organizada na qual o século XX teve só 80 anos. Não teve década de 60- não teve década de 70. Tivemos 64,68 e 69. Enquanto todos voavam fomos obrigados a um pouso forçado. Nós e a Panair do Brasil. Nós e Correio da Manhã. Nós e a Rádio Mayrink Veiga, a Rádio Piratininga, a Rádio Nove de Julho, Nós e Geraldo Vandré, Nós e Rafael de Carvalho, Nós e João do Vale. Nós e o Teatro de Arena.
Nós e a herança latina. Portugal teve Salazar. A Espanha, Franco e nós, os filhos sulamericanos, as ditaduras. Num cômputo geral, não sabemos ainda o que perdemos em Cultura e Civilização. Hoje a mídia saúda Obama e proclama que nada será como antes no país de Abrantes. De concreto, nada existe. Só promessas globalizadas que a mim parecem atravessadas, pois continuamos um quintal grande nesse mundo sem fim.
Se tudo continuar assim, não vai haver boa vontade que de jeito nesse brincar e mais brincar de ser perfeito. Vamos continuar a viver uma grande ilusão repleta de preconceito. Vamos ser todos individualmente como o personagem de José Dumont em “Bahiano Fantasma”. Vamos ter cada um nosso direito aos 15 minutos de fama numa manchete de jornal povão. Vamos ser um crime para eles e o nosso castigo. Prá isso? Eu nem ligo. Eu quero é mais.
Hoje é o dia do Armistício e, no texto acima, acho que fiquei em paz com uma série de fantasmas que me povoam o consciente e o inconsciente desde que confessei que vivi todas essas coisas sobre as quais escrevi. Vou continuar realizando esses macacos, se agitando num sótão repleto, num delírio completo, até formar outro objeto que me incomode. Aí, volto a exorcizar las brujas. Tenho dito.

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