quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pagando Pela Diferença

Uma revista Belorizontina- a “Encontro” – feita por socialites para socialites, veio com a matéria de capa para este mês falando sobre a “sorte” que a capital mineira têm em agora fazer parte do circuito internacional de astros e estrêlas. Na capa, a foto de um Rudolph Schencker(Scorpions) completamente decadente, nos seus 60 anos de PopMetal( comemorou no RJ, numa festa regada a putas e caipirinhas), em sua primeira apresentação em BH.
O que a revista “esquece” é que essa é a quarta vez que o Scorpions vem ao Brasil. E apesar do Queen, do Duran Duran, do Paramore também virem ao Brasil, eles não virão a BH, nem irão a Recife ou a Campinas- os novos pousos forçados de qualquer banda que faça uma tour por aqui.
Na verdade, o circuito nacional ficou interessante porque, na devida proporção, a sede de faturamento dos artistas também aumentou devido a dois fatores convenientemente desprezados pelo jornalismo cultural de resultados: algumas bandas estão nos estertores e realizando suas últimas tournées caça-níqueis(caso do Scorpions e Deep Purple) ou então em início de carreira(Paramore), quando qualquer cachê é cachê e a exibição é o que vale, no sentido de venda de material, execução na rádio e clipe na MTV.
Mesmo assim, apesar da decadência, o cachê de um Queen ou de um Duran Duran ainda é bem caro para os padrões apresentados por BH, Recife e Campinas- sem a mínima infraestrutura financeira e mesmo técnica para receber bandas de megapadrão. As datas seriam marcadas por sublocação(quem traz o grupo monta o show na praça em parceria com um empresário local) e, no caso de Campinas e de BH, aparelhagens teriam que ser deslocadas de SP( Campinas) e RJ( Belo Horizonte). Por outro lado, apesar do Paramore ser uma banda de cachê barato, no caso de BH ele é uma banda completamente desconhecida, não tocando nas rádios locais e aparecendo sómente na rede MTV, sendo um risco assumir um show dessa forma.
Pode parecer sem nexo o que eu escrevo hoje, mas aqui vai a explicação necessária. Uma leitora de meus escritos assinalou que eu tinha um pouco de razão em assinalar que o Jornalismo Cultural de hoje- com raríssimas exceções – está de braço dado com a desinformação e a negligência. E é verdade.
Uma matéria séria para a capa da “Encontro” obrigatóriamente teria que falar a verdade sobre o porque de BH agora ser tão “$ortuda” em poder assistir ao $how geriátrico e caça-níquei$ do Scorpions no Mineirinho- local não muito indicado para aquele tipo de show, já que sua acústica é péssima. Na verdade, a matéria não passa de um elogio ao show e a outras presentations, em locais “bem frequentados” e que “contribuem” com anúncios para fechar o faturamento da publicação- sucesso editorial desde seu lançamento no segmento ao qual se dirige.
Tomando a praça de Belo Horizonte como exemplo, esse tipo de ocorrência- saudar “realizadores” intere$$ante$- não é privilégio da “Encontro”. Até a chegada do “Magazine”- caderno de cultura de “O Tempo”(1996), todas as editorias de cultura eram “bem relacionadas”, principalmente o chamado “Jornalismo de Amenidades”, que levou e ainda faz a mídia diária de BH ter mais colunas que toda a antiguidade greco-romana( O próprio Diretor da “Encontro” é colunista e edita um caderno semanal no “Hoje em Dia”- diário pertencente a Igreja Universal Reino de Deus).
Foi com o “Magazine” que o jornalismo cultural da cidade começou a ter opinião e a recomendar ou alertar o público para eventos considerados picaretas. Um dos grandes exemplos e que quase degenerou em pancadaria foi a chegada à cidade para duas apresentações do “Creedence Clearwater Revisited”, que foi apresentado ao público de BH como sendo o grupo original quando, na verdade, trazia apenas o baixista e o baterista do Creedence Clearwater Revival(Original), já que os irmãos Fogerty- brigados entre si e com o resto do grupo - não compactuavam com a mutreta e não tinham cedido autorização para o uso do nome, que lhes pertence.
Apesar do engodo e da distribuição de releases pelo empresário belorizontino, autenticando a muteta, a Agencia Folha saiu com uma resenha do espetáculo feito em São Paulo, onde a falsificação era denunciada. O “Magazine” fez uma matéria de serviço alertando para o fato e o empresário local foi à redação tomar satisfações, sentindo-se ofendido, pois antes nunca ninguém tinha “duvidado de sua palavra”.
Hoje, acredito que esse tipo de jornalismo esteja extinto, pois entretenimento é falar de Televisão, do filho da artista de sucesso, de quem namora quem, onde quem foi fazer compras e toda futilidade possível. Quando muito uma grande inutilidade é apresentada como matéria exclusiva( vide mulher melancia, mulher jaca, mulher moranguinho e outras rebolativas, como diria Sergio Porto).
Quanto a falar de música, não se fala mais nisso, já que a indústria fonográfica está completamente destroçada, não sobrevivendo à crise interna desencadeada pela revolução tecnológica. E assim, aqueles que se interessam vão pagando um preço alto pela diferença de qualidade na informação que procuram e custam a obter, completamente desfocada, sem propósito e desconexa, num ufanismo a respeito daquilo que é mostrado que chega as raias da infantilidade. Tudo isso num texto cheio de erros de grafia e de informação, no qual a culpa nunca é a falta de capacidade e sim a estreiteza do deadline e do fechamento. Durma-se com esse barulho.

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