quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008






O homem que mudou a estética da música feita no século XX, faria,esse ano, 110 anos de boa vida às custas dos seus direitos autorais. Nunca frequentou um conservatório. Nascido no Brooklyn _Nova Iorque_ em 25 de setembro de 1898, seus pais eram imigrantes russos e levavam uma vida de classe média de Belle èpoque. Sensíveis aos talentos dos filhos, os pais de George não mediram esforços para que sua educação musical fosse nota 10, custeando-lhe toda uma bagagem de aprendizado e treino com os melhores professores da cidade. Nunca um investimento em arte deu tantos dividendos. "Swanee", cantada por Al Jolson, inaugurou o cinema falado. "Summertime" está no repertório de qualquer cantor de botequim. E, no dia que alguma pesquisa for feita para determinar qual a composição instrumental mais americana que já foi produzida, "Rhapsody in Blue" vai estar entre os dois primeiros lugares.
Seu estilo individual e inconfundível tinha composição química semelhante a de uma sopa de fim de noite. Passava pela música de circo, pelas canções de trabalho que os negros cantavam pelos cais do Hudson, pelo " melisma" ídiche, pelo impressionismo de Mussorgsky e Ravel e pela execução virtuosa de Liszt. Foi desse batuque na cozinha que saiu "Rhapsody in Blue". Sua grande estréia, em 1924, foi como um meteoro colidindo com o planeta música. Não sobrou nota sobre nota.
Da mesma forma que trouxe o jazz para o palco do Carnegie Hall , Gershwin levou Ravel para conhecer o boteco da esquina. Seu tráfego nas novas propostas ,aliado a um sentimento e a uma estética próprias, o levou a ser a referência para todos aqueles que arranjavam e orquestravam música em qualquer gênero. Gershwin era a vanguarda do pop. E tinha currículo para tanto. "Swanee", feita em 1919 e gravada no ano seguinte por Al Jolson, fora o primeiro 78 Rpm a passar das 500.000 cópias vendidas. O feito só foi ultrapassado por "White Christmas"(Bing Crosby) nos anos 30. Com a divulgação de "Rhapsody in Blue", a maioria de suas soluções orquestrais foi incorporada de imediato a toda a produção de qualquer lugar. A repercussão da peça foi mundial.
No Brasil, os arranjadores e regentes já vinham flertando com o pop internacional desde que Pixinguinha introduzira figuras jazzísticas nos arranjos do rpertório executado pelos Batutas. Mas, é com a era do rádio que a música Brasileira é exposta a influência do Jazz e de Gershwin. Com a inauguração da Radio Nacional em 36, Radamés Gnatalli _então seu grande orquestrador_ começa a vestir o repertório popular dos cantores contratados com novos arranjos, mais afeitos às peculiaridades técnicas do veículo e dentro das características prescritas nas pautas de Gershwin. É aí que Radamés adere a influência sem o mínimo preconceito e grava seu choro "remexendo"(1943), com um conjunto de quatro saxofones e uma bateria, dispensando os ritmistas!!! Orestes Barbosa chegou a propor em sua coluna de jornal uma das primeiras campanhas para "nacionalizar de volta" a música popular!
O grande escândalo que Gershwin provoca na música nacional acontece em 1946, quando um paraibano maluco por música chamado Severino Araújo grava, com a orquestra Tabajara, o choro "Paraquedista", no qual o trombone solista é secundado por uma seção de metais de fazer inveja a qualquer composição da Broadway. No ano seguinte, Araujo vai mais além e faz um arranjo em ritmo de samba para....."Rhapsody in Blue", respeitando todas as marcações originais do mestre. A crítica nunca perdoou o paraibano maluco por música em mais esse deslize. Nos anos 50, o projeto naufragado da "sinfonia do rio"(Billy Blanco e Tom Jobim) também refletia Gershwin. E seu fantasma gozador ronda até hoje a porta dos estúdios. Não é necessário ser vidente para essa chama de mediunidade.
Quando Gershwin morreu aos 38 anos(11 de julho de 37, em Hollywood), ele estava tentando modificar seu estilo, namorando as cordas de uma orquestra. Estava compondo um quarteto. Seu desenvolvimento musical foi demasiado para a vida breve que teve. è impossível de se fazer qualquer projeção de como estaria sua produção e estética nos anos 40 e 50. Já imaginaram o que aconteceria se ele chegasse a conhecer Charlie Parker e o pessoal do bee-bop? E, nesse início de terceiro milênio, não existe nenhuma dúvida a respeito de seu lugar privilegiado na história da música do século XX,seja ela erudita ou popular.

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