Voltando a um assunto anterior, é muito engraçado ouvir a Universal trombetear aos quatro ventos que o DVD de Ivete Sangalo – com 500 mil cópias vendidas – foi o top de linha da multinacional fonográfica em 2007. É ridículo dar festa sobre uma vendagem pífia. No século XX( bons tempos, heim?), uma vendagem dessas ia ser mais uma, pois o que valia era o milhão. A culpa desse prejuízo? A propriedade intelectual e seus custos exagerados na manutenção de previlégios da indústria e asseclas(produtores, engenheiros de som e editoras). Quanto a pirataria, essa é apenas a fanfarra para um homem comum se satisfazer culturalmente com o produto de sua preferência. Para um combate efetivo a sua prática, muita mudança vai ter que ser feita no panorama que vemos de uma ponte sem cabeceiras entre público e artista.
A Propriedade Intelectual é uma burla. Estender ao intelecto a noção de propriedade privada é um atentado ao bom senso, principalmente nas legislações restritivas que estão em vigor. A multimídia e seus novos processos atropelaram tudo e, se alguém quer colocar barreiras ao upgrade, vai ter que estudar um pouco no sentido de fazer algo que respeite as liberdades individuais e a inclusão cultural de cada um dos habitantes do planeta. As noções existentes só têm sentido em objetos concretos em estado de arte, que começam a ficar raros em nossa sociedade digital emergente. Sempre um. Essa é a teoria geral da contagem pura- a nova medida para tudo. Esta é a realidade digital. Um ou Zero. Assim, Um para o objeto de consumo e a inclusão cultural. Zero para a propriedade intelectual.
Estamos numa transição semelhante a indigestão de Nietsche perante o ressentimento.
Todas as legislações restritivas perdem o sentido perante a revolução tecnológica, já que os novos seres que surgem são únicos e sem predecessores. Os mutantes formados na transição estão com síndrome de falta de informação na procura de novas atividades ou afazeres.
Manter esse paradigma de ser “moderno” é manter a exclusão cultural.
A grande problemática da propriedade intelectual é a contradição gerada pelo sucesso e pela vendagem do trabalho, antes artístico e agora meio de sustento. Não há resistência que iniba o poder de consumo. É isso que faz o excluído aderir à pirataria. Cuba é um exemplo concreto.
Vale o protesto e a afirmação: o que gera a pirataria é a convivência com a contradição. Toda a legislação sobre direito autoral existente foi imposta ao populacho do planeta antes que a revolução tecnológica barateasse o equipamento, com criações e reciclo de processos. Um CD com capa a duas cores na caixa sai por um máximo de US$3. Uma gravadora vende esse CD por US$45. Como não cair em contradição ao tentar justificar um overprice de 2000% em cima de um CD do artista do momento? È aí que entra a “desculpa” do respeito a propriedade intelectual. E a “desculpa” tem lobby forte. Basta consultar a legislação brasileira sobre o assunto e a total impunidade da Indústria Fonográfica no tocante as exigências formais inerentes ao respeito àquilo que ela diz defender.
Para concluir, a inclusão cultural no planeta nunca será possível sem a derrogação ou a mudança da conceituação de propriedade intelectual que está vigente, ao gosto das corporações e dos proprietários da mídia. Eles vêem a todos nós- que não estamos nem aí com meio que nos utilizamos para nossa finalidade cultural- como ameaça aos seus lucros. Eles não se organizam para combater o crime organizado porque fazem parte dele desde a época em que o piratão de Roberto Carlos chegava às bancas da feira de São Cristóvão antes do lançamento oficial.
Por outro lado, ela também passa por soluções mais amigáveis para os softwares e sistemas operacionais GNU e por uma distribuição mais eficiente e desinteressada da produção contracultural.
O fato é que todos nós teremos que desenvolver uma política de auto-inclusão. Senão, vamos ficar sentados a beira do caminho, num original de Roberto & Erasmo e que nunca ninguém copiou.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
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