terça-feira, 26 de fevereiro de 2008




Não se pode esperar muito do Rock and Roll num país onde a primeira gravação do gênero foi um cover de "Rock around the clock"- em inglês - registrado por.........Nora Ney. A então já vetusta cantante do elenco da Rádio Nacional foi a verdadeira mãe do nosso rock . Vai ver que é por isso que roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido. Nossa síndrome Macunaíma foi bem mais além, pois os roqueiros daqui deglutiram as extensões virís, simbolizadas pela guitarra e pelo rabo-de-peixe, vomitando as duas em uma só lambreta.
Só roqueiro é que andava de Lambreta. Como andar de Lambreta sempre foi coisa de macho, todo roqueiro era homem práca.......e sózinho, pois, devido a moda tubinho, era muito raro uma simpatizante subir numa garupa, já que calça comprida naquela época também era coisa para macho.
O figurino básico do roqueiro brasileiro passava longe dos jeans, tênis e camisetas. A colonização cultural não dava margens a radicalismos e a alma psicotrópicoanárquica continuava a mandar lembranças na seguinte mistura: calça de brim, sapato globetrotter (quem nasceu nos anos 50 deve lembrar daquele mocassim!), camisa de madras e pulôver amarrado no pescoço. Entre as pernas,além dele (quem?), uma lambreta. Cigarro Chesterfield e, como bebida, "samba em Nagasaki" (Coca Cola, rum Montilla e Pervitin ou Dexamil Spansule, ou Probese, ou Anorexyl ou qualquer outra bolinha que pintasse). Essa era a configuração básica do transviado. E os transviados não se faziam de rogados: mandavam e misturavam tudo.
De Pat Boone a Jerry Lee Lewis, valia o que vinha gravado nos discos do HIT PARADE KOLYNOS, que as rádios Mayrink Veiga (RJ) e Piratininga (SP) veiculavam nas madrugadas de sábado para domingo. Na Piratininga quem apresentava era Fausto Canova, no Rio, um jovem que está terminando seus dias babando na gravata,ao ler editoriais no Fantástico da Rede Globo.
Apesar de ser coisa de macho, a primeira unanimidade do Rock ao sul do equador foi Celly Campello. É a partir dela que tem início a lobotomia Teenager no país, repleto de senhoritas que, depois de um banho de lua, estavam loucas para ser agarradas pelo estúpido cupido mais próximo. Já completamente colonizados, os goiabões e suas meninas dos biquinis amarelinhos destróem os cinemas a cada exibição de "o balanço das horas" e filmes de rock and roll subsequentes. Se Tony Campello faz o lado romântico meio latin-lover do nascente "ritmo da juventude", os Ronnie Cordes da vida entram a 120 por hora pela Rua Augusta, botam a turma toda do passeio para fora, param a quatro dedos da vitrine e, ato contínuo,morrem afogados numa ejaculação diluviana.
E por ser coisa de macho,o rock começou a atrair aqueles que gostavam de machos. Sérgio Murilo foi o primeiro porta-voz das minorias dentro da nossa versão do gênero. Além de boy, foi ele quem gravou o rock multirracial número um feito aqui ("Marcianita/verde ou preta"). Na época, ninguém notou sua atitude políticamente correta. Atrás de Sérgio Murilo vieram Rossini Pinto, Serguei, Denise Barreto e Osvaldo Nunes.Este último, depois que chapava o melão,ia até a Rua Taylor,pegava cinco garotinhos,dava uma última passada no Berro do Paulistinha e saia de lá gritando: -"para fazer o que eu vou fazer agora tem que ser muito macho!"
Com Carlos Imperial e Hélio Freitas protagonizando seu primeiro escândalo sexual, o Rock Brasileiro chega à menstruação. As vítimas da sedução com fins libidinosos deviam ter quinze anos, no máximo. Numa das audiências, Imperial tem a cara de pau de dizer ao juiz que não pedia a identidade das mulheres com quem trepava. Escândalo completo! A manchete da "Revista do Rádio" dizia tudo:-"Rock Brasileiro é uma pouca vergonha!".
O "ritmo da juventude" surgiu na vida de Gil e Caetano, Gal e Mutantes, da mesma forma que o sexo na poesia de Fernando Pessoa: um mero acidente de percurso. Os Baianos exorcizaram seu narcisismo usando guitarras como trilha sonora. Já na Jovem Guarda, dalí para a frente, tudo era diferente. De "Splish Splash" para "Um Whisky antes...um cigarro depois", a caminhada tinha sido muito curta. Só ficou longa para se chegar ao "vira" dos Secos & Molhados. Afinal, 10 anos não são 10 dias. Mesmo assim, a máscara de Ney mostrava que o tempo estava do seu lado. A Rosa de Hiroshims era um infinito mistério. -Seria mutante?- ou um caso sério? Dois passos a frente e a Paulicéia Desvairada largava de lado uma Rita Lee travestida de Alladin Sane para fazer o côro de "ê companhêro/vamos ao banhêro"- berrados por Percy, vocalista do Made in Brazil no antológico festival de Saquarema. -Androgínia tropical ou completa putaria? -Ninguém sabia!...........
Nessa época, quem era macho era Raul dos Santos Seixas. Oscilando sua Pelvis em "Let me sing", nosso Elvis Presley de Salvador mostrava que sua música era um porto seguro de virilidade. "Gita" dizia tudo o que as Ediths, Glórias e Beths da vida queriam ouvir. "Medo da Chuva", o ponto final da relação. Se elas quisessem alguma reprise, bastava apostar na loteria da babilônia. Não havia sociedade alternativa em seu machismo.
Se nos anos 60 o Brasil se sentou, nos anos 80 ele manda a ditadura passear usando cordas, teclados e baquetas como trilha sonora - dando vazão aos punks da periferia, ao rock de bermudas, a várias cópias do Police e a metalmania. Paulo Ricardo surge como o grande símbolo sexual da fase, indo macho até um incidental beijo na boca de Caetano. Por uma estranha coincidência, a carreira do RPM dá para trás a partir desse momento histórico. Segundo alguns entendidos, a trajetória da banda foi para o espaço devido a uma simples contradição: o ego da ex-paquita não batia com o do velho compositor Bahiano. Assim, tudo não era lindo, tudo não era maravilhoso............
Mantendo a ambivalência, Cazuza sinaliza um verde novo em folha para um Sempre Livre, que faz a pista para a aterrissagem de Cássia Eller. Estamos conversados: entre mortos e feridos, no Rock Tupiniquim sempre houve espaço para todas as políticas, ideologias e preferências. Jorge Mautner, Sérgio Bandeira, Malú Viana estão aí para dirimirem as dúvidas no "Se me considero andrógino,sou bissexual?" Como diria Ezequiel Neves, não adianta discutir ou ficar se perguntando. Mesmo que encontrem a resposta, seja ela macho - seja ela fêmea- vocês não poderão provar nada!
Dando uma mostra de como a Jovem Guarda era feita nas coxas, você fica com Wanderléia cantando "Boa Noite!"

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