Como Carioca preconceituoso que sou(O Brasil é o Rio. O resto é anexo), acho que o finado Paulo Francis estava coberto de razão em afirmar que a Cultura Brasileira estava repleta de Bahianadas. Eles iam para o Rio de Janeiro, faziam sucesso e ficavam cantando “Que Saudades da Bahia” em diversas variações. Tivesse com saudade mesmo, voltasse pra lá, né?O Rio foi esvaziado pelos militares e por uma praga chamada Leonel Brizola. Os militares realizaram a fusão, que deu nisso que vemos hoje, tendo que aturar um monte de gente falida nas costas. E Brizola abriu as portas da cidade para o bicho, o tráfico e a corrupção, não necessariamente nessa ordem, tornando o que era endêmico e controlado numa vasta epidemia, com manifestações peculiares como o vírus Marcelo Alencar e a bactéria garotinho( não passa disso. É bactéria mesmo). Paulo Francis viveu pouco para ver a tremenda bagunça que o Rio virou, sem chance ou esperança de um Charles Anjo 45 para dar jeito na coisa.
Mas, num passado recente, quando ainda havia grana e poder de decisão no RJ, a s Bahianadas eram mais fortes e atacavam em todas as vertentes. Na minha visão preconceituosa, o pior ataque Bahiano aconteceu no cinema, sintetizado em um nome: Glauber Rocha.
Ontem a noite, zapeando aqui e ali, cheguei ao Canal Brasil, que exibia “A Idade da Terra”. Assisti aquele discurso monocórdico do Carlos Castelo Branco, tomando Whisky e falando sobre a revolução de 64, naquele plano geral que não muda desesperadoramente, cortando para aquelas cenas patéticas de Maurício do Vale em Brasília, num coleção de “shots” que só deveriam fazer sentido na cabeça lisérgica e derretida do realizador.
Fiquei meio puto, desliguei tudo e fui ao banheiro, pensando, para chegar a uma conclusão meio doida, mas que na minha visão de velho preconceituoso, faz sentido. Glauber era um mal necessário para os militares. Eles o suportavam pois Glauber significava estéticamente uma abertura cultural com visões políticas estruturais de construção de uma nova sociedade, como todos os libertários pensavam naquela época histórica. Ser adepto de novos conceitos era ser moderno. Glauber era moderno. Os Militares queriam ser modernos dentro de sua política de segurança e desenvolvimento. Daí os pontos de contato entre Glauber e Golberi. Daí as laudações que o deixaram sozinho num terreno meio perigoso, que derivaram em uma luta com a esquerda intelectual, que, a partir do elogio a Golberi, começou achar a obra de Glauber uma bahianada meio irracional.
Ao elogiar as reservas de mercado, Glauber também encontrou alguma resistência pois o empresariado mais consciente tinha noção que a providência ia acabar com a competitividade e a concorrência, como de fato aconteceu anos mais tarde e até hoje sofremos com isso econômicamente.
Não existe outra explicação para Glauber ter financiamento em produções onde não havia roteiro, nem storyboard, nada. Havia apenas uma idéia na cabeça de Gláuber e uma câmera na mão dos outros, já que Glauber era tão alucinado que nem segurar a câmera ele conseguiria. A grana que Glauber arrecadava para filmar seu universo devia ser liberada via “ordens superiores”. Investir em Glauber era jogar dinheiro fora. “Cabeças Cortadas” é um grande exemplo.
Voltando a Bahia, devemos sua anexação ao território do país a um Mineiro, José Bonifácio, que foi o artífice da vitória contra os Portugueses em Salvador e a conseqüente retirada das tropas portuguesas da Bahia de Todos os Santos, que teve seu ápice no tratado de 1825. Assim, graças ao Patriarca da Independência temos tudo isso para nos infernizar, desde ACM e seu legado até João Gilberto, passando por Jorge Amado, Glauber Rocha e indo até a Axé Music. Raul Seixas nasceu lá por acidente.

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