Se nos anos 60 o must era a contracultura, hoje, a cultura de rua é o lance legal, porém completamente elitizado. O Rap chegou a zona sul e o funk saiu da quadra do subúrbio para o clube socialite. Quanto ao pagode, este ficou tão diluído que qualquer boteco do leblon(RJ), Savassi( BH) ou Jardins(SP) tem a sua roda nos finais de semana.Da mesma forma que a elite cooptou e se apropriou da contracultura nos anos 70, o terceiro milênio assistiu ao rap ser cooptado, o pagode sair do barraco para a cobertura e os concursos de “dança-da-bundinha”(funk) se incorporarem as festinhas de 15 anos de socialites descoladas, com direito a fotos nas revistas de chiques e famosos.
Esse determinismo sócio- comportamental é repetitivo que nem relógio. A arte popular, em sua criatividade, gera espontaneamente eventos que- dentro da ciência da estatística- tornam-se moda pela sua repetição e incidência universal. A partir daí, a cooptação é o próximo passo do algoritmo. A fórmula é essa e vêm sendo a mesma desde que a indústria cultural passou a ter registro e referência.
O grande exemplo no sentido de acompanharmos esse trajeto é o caminho transversal que a programação de TV vai incorporando, a medida que vai se perpetuando. Luciano Huck apareceu para a “fama” com um programa diário nas tardes da Band, repleto de “novidades” que começaram a se tornar moda entre o público, como a “Tiazinha” e “Joana Feiticeira”, tão marcantes que chegaram a ter vida própria. Mais tarde, ao ser contratado pela Globo, ganha um programa semanal(diminuição da freqüência de exibição), aos sábados(troca de universo de audiência).
O mesmo aconteceu com Faustão, Serginho Groissman e outras ditas marcas televisivas, as quais os conglomerados as vezes exibem massivamente, as vezes congelam ou as vezes ignoram, em horários inacessíveis aos seus antigos públicos- como foi o caso de Gastão e é o caso de Serginho Groissman.
No disco, a repetição de processos e procedimentos foi maior que a troca e o investimento em novas faixas de público, no sentido de abrir ainda mais ao universo à penetração do artista.
Roberto Carlos vêm representando musicalmente o mesmo roteiro romântico-piegas há mais de 25 lançamentos, trocando apenas o nome das faixas e a ambientação da capa, dirigindo a um público, dito apaixonado, uma música bolerizada, cantada em português para o Brasil e num castelhano sofrível para o mercado latino. É um caminho a ser seguido, pois em sua cola vêm Fernando Mendes, José Augusto, Michael Sullivan e Ricardo Braga. Se Roberto & Erasmo foram os compositores dos anos 70, Sullivan & Massadas foram os dos anos 80, Xitãozinho e Chororó os dos anos 90 e Zezé di Camargo & Luciano os da atualidade.
O único nicho onde a criatividade deu mostras e a renovação no gênero foi patente é o cinema. Graças a Deus, perdemos Glauber Rocha e os zumbis do cinema-novo, trocados pela Conspiração Filmes, Andrucha Waddington, Fernando Meirelles, Lázaro Ramos e todo um catálogo que vai desde “Central do Brasil”, passando por “Tropa de Elite” e indo até “Cidade de Deus”.
Se no cinema, Deus realmente mostrou que era Brasileiro e nos livrou dum monte de malas, porque nas outras artes e na literatura ele não foi patriota? Fazer o quê? Porque só o determinismo e a cooptação contam para as outras e não para a sétima arte? Que tal um paredón cultural? Os AR-15 existem. Só falta ir lá alugá-los que nem assaltante de banco.

Nenhum comentário:
Postar um comentário