Houve uma época em que, realmente, uma parcela da sociedade tinha vontade de puxar uma arma quando ouvia falar na palavra Cultura. Essa parcela da sociedade se revoltou e instituiu a contracultura- a Cultura do Contra, cujo grande pilar era o conflito- fosse qual fòsse – qualquer que fosse.A primeira luta de classes entre a sociedade e essa parcela foi o conflito de gerações. Frank era Sinatra na cabeça da mamãe e Avalon na cabeça da filhinha. Enquanto o primeiro chamava a mamãe para dançar, o segundo queria levar a filhinha para uma praia distante e ficar contando as bolinhas amarelinhas do biquíni dela atrás de uma pedra.
Um pouco mais tarde, a Beat Generation colocou o um pé na estrada e um pé na tábua, botando a turma toda do passeio pra fora e, entre as gangs e as gingas de West Side Story e a literatura contida em “junkie”, começou a botar as manguinhas de fora, criando novos espaços a medida que os existentes lhes iam sendo negados num retrocesso do establishment à rebeldia sem causa que o incomodava.
O “I Love You” cinematográfico-musical contido em “Suplício de uma Saudade” e nas baladas chorosas de Eddie Fischer, Dean Martin, Frank Sinatra, Perry Como e Tony Bennett cedem lugar ao quebra-quebra de “Blackboard Jungle” e ao balanço infeccioso de “Rock Around The Clock”. Tinha começado a revolução dos rebeldes sem causa e do contra apenas por quererem ser jovens. Confiar em alguém com mais de 30 anos? Nunquinha! Estava na hora do amigo do lado dizer para ti: “Você não sabe nada, cara!- Quro que você venha comigo!....”
E esse amigo existia. O nome dele era Jefferson, Jefferson “Dropê”. O sobrenome se perdeu pelo caminho, vindo de Brasília para o Rio, de caminhão, trem, a pé ou de bicicleta. Para dormir, debaixo de uma árvore era a cama. Para comer, sempre se pode pedir um prato.
Dropê - Aquele que sabia das coisas e foi o primeiro agitador cultural em plena forma que eu conheci na minha vida. Para ele, o importante era estar presente e colaborando, fosse com texto, fosse com foto, fosse com trabalho braçal. Participar era a palavra de ordem. E ele sabia contrabalançar a coisa de forma a que a participação coletiva se transformasse em divertimento. Era um líder nato e, se não fosse por sua força, a “Rolling Stone” da Rua Marquês de Caravelas 86 teria fechado as portas bem antes que o previsto.
Dropê sumiu. Ele e a Sueca desapareceram na nebulosidade hippie que permeiou o Píer e toda a região saltimbanca de Ipanema, entre a Praia, o Chaplin, a casa do Ezequiel e a toca do Rock, onde o Butica deu trambiques e Veludo Elétrico, Rock Ebó, Paulo Bagunça & A Tropa Maldita, Módulo 1000, Lodo, Equipe Mercado, A Fenda, Paulo Cláudio & Maurício, A Década, Estômago Azul e Os Lobos pontificaram até a poeira das estrelas ser varrida pela bruxa má chamada ordem no recinto. Eu sinto muito em dizer o que acontecia há 40 anos e lembrar de gente diferente que hoje faz falta como o Dropê.

2 comentários:
Só você mesmo, Luis Sergio, para lembrar Dropê, que conheci pelas páginas do RS e Paulo Cláudio & Maurício, que nunca ouvi, só li, no mesmo lugar. Existe alguma maneira de ouvi-los hoje? Que fim levaram? E que fim levou Lucinha Turnbull? Parece que agora tem um vinil pirata dela com a Rita Lee. Mundo bizarro.
Luis Sergio
Encontrei suas citações a meu respeito e fiquei emocionado. Tempos perdidos ou achados que existem apenas na memória. Muitos se foram e restam apenas as lembranças. Não me lembro de você me desculpa. São muitos neurônios queimados.
Se possível, vamos nos encontrar. Também tenho saudades da Sueca que nunca mais vi.
Um forte abraço
Jefferson Dropê
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