sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Antes Tarde do que Nunca!

Hoje, devido a um pití colunável, eu fiquei fora do ar durante a manhã, tendo ido visitar um ortopedista na urgência de um hospital. Dois Tylex depois do fato, cá estou de volta, meio barro/meio tijolo, digitando alguma coisa no sentido de preencher esse vazio que me faz falta ver e me deixa sempre surpreendido com aquilo que consigo perpetrar para que os outros apreciem.
Na medida que essas merdas físicas vão me enchendo o saco, caio em abstrações no sentido estrito de dimensionar a relação entre a arte propriamente dita e o sofrimento físico. Tenho uma amiga pesquisadora que assinala que o conceito “Aleijadinho” é uma das grandes traduções de que sofrimento & Arte são indissociáveis, já sua forma folclórico-romântica tem a associação como indispensável para que o trabalho do dito artista do barroco fosse reconhecido como obra prima.
Numa opção mais abstrata, o sofrimento psicotrágico de Van Gogh seria o responsável por sua obra ser única e expressiva na colocação de impressões e no desenhar de expressões pictóricas irreproduzíveis e incopiáveis.
No meu caso, acredito que minha força criativa e geradora para qualquer manifestação esteja completamente dissociada do sofrimento em qualquer nível, pois qualquer manifestação que me tire do agradável fecha a torneirinha e o pinga pinga criativo estanca-se.
Mas a lenda é bem mais forte e o mito de que sofrimento gera arte é padrão em nossa cultura. O Blues é uma prova. Uma lenda de bluesman bem composta passa pelo cruzamento das highways 49 e 81 e de um papo “tete à tete” com o barão. É lógico que o barão vai cobrar seu preço. Se a alma do bluesman não ficar empenhada ao barão no alcance do sucesso e das mulheres, vai mesmo é ficar com o “The Doctor” da esquina, sempre em troca da próxima picada. Tudo isso regado a muito vinho de quinta, Bourbon de segunda e seconal até não poder mais.
Fazendo da religião um espelho, o vício, a dor e o sofrimento são auto-infligidos, numa espécie de martírio, que pavimentará com sangue e lágrimas a estrada do conhecimento. O suor ficará pelo caminho em desidratações mis e diarréias, em síndromes de abstinência inenarráveis, abreviando em décadas existências prolíficas que poderiam ter contribuído bem mais que o mínimo a um reconhecimento de qualidade do cancioneiro gerado.
E o jazz não deixa por menos. Numa série de depoimentos recolhidos por Alan Lomax para discoteca da Biblioteca do Congresso norte-americano, diversos músicos assinalaram que, durante algum tempo, tanto em St Louis quanto em Kansas City era uma prática normal o músico se viciar em heroína para aprender o jeito de tocar dos grandes nomes que todos sabiam ser addicts. Essa era uma das explicações para o vício autodestrutivo de Charlie Parker. Teria Kurt Cobain feito a mesma coisa, guardando as devidas proporções?
A contradição se estabelece em qualquer ponto que se discuta o conceito, já que durante algum tempo acreditei não ser nada antes de fumar um baseado e hoje sei que isso é uma grande mentira. Escrevo porque sei e porque gosto. Acredito que isso seja um assunto interessante e voltarei nele bem mais rápido do que se imagina.

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