O mês dos gêmeos nunca me impressionou muito. Como estou acostumado a ver o igual se perpetuar em qualquer nível, esse predicado do oito não me deixa meio perturbado como aos outros. Para mim é um mês como qualquer outro, ó fazendo diferença no impacto que ele causa ao penetrar na vida diária.As aulas voltam , pais que estavam vagabundeando com os filhos na Europa ou nas escarpas do galo voltam a atravancar o tráfego com seus carros, ao levarem as secretárias para almoçar no motel. Suas mulheres voltam a atravancar o tráfego em volta dos shopping centers ou nas pistas de autorama dos garotos de programa. As cadeiras das praças de alimentação voltam a sumir, as praças de alimentação superlotam, os caixas eletrônicos não dão vazão- Eeh! Como é deliciosa a vida moderna, né mesmo?
Eu mudei de bairro. E também mudei de vida. Moro a uma boa distância do centro. Se fosse em termos de Rio é como eu morasse em Botafogo e o centro fosse a Praça Paris. Se aqui todo mundo acha longe eu acho moleza! É porque eles nunca moraram na zona sul e tiveram aula Fluminense, naquele campus lá de Icaraí. Indo de ônibus pela ponte, para o passeio ficar mais divertido ainda.
Aqui no meu bairro novo tem de tudo um pouco. Só não tem agência bancária, que ficam na avenida de ligação com o centro( todas as agências). Supermercado e hortifruti tem dois na esquina, dando até para escolher, além de todo um básico de bairro, incluindo uma banca de jornal legal e um tem-tudo que me abastece de coisas inusitadas e, as vezes, necessárias.
Moro num térreo adorado pelo cachorro, que late a qualquer aproximação nas janelas e na porta de entrada. O alerta não tem hora para ser dado. Principalmente quando, pelo timbre e entonação do latido, você sabe que o cachorro está fazendo manha.
Som eu só ouço de fone para não incomodar a vizinhança. E por aí vai minha vidinha burguesa se desfiando . Num sei se estou vivendo bem ou mal, mas bani o agito. Vida noturna eu nunca tive certa, a não ser quando a azaração era palavra de ordem. Aí, me achar em casa só doente, desprezado ou espancado.
Aqui em BH até que eu não provei muito da farinha do desprezo. Todas as mulheres que pintaram foram sobremesas de gosto novo, algum mais doce, outro mais apimentado, mas nunca ficamos no preju´zio, nem eu nem a parte interessada.
Logo que cheguei, em 1984, uma das casas noturnas da moda se chamava “Le Galop”. Ela pertencia a um figurão do society, conselheiro do Clube Atlético Mineiro, mas não era lá boite de classe. Era mais dançante e democrática que a Tom Marrom – a verdadeira casa socialite da cidade. Uma noite, cheguei, entrei e me dirigi ao bar, que ficava na antecâmara do salão de dança. Enquanto eu metia um natu nobilis duplo para dentro, senti que estava sendo observado por uma morena cheinha, de cabelo cortado a pagem, pintado de preto. Na maquiagem, olhos feitos e um batom vermelho Ferrari mais cheguei do que qualquer outra coisa. Olhei para ela na azaração e ela me olhou bem nos olhos. Dei um sorriso e captei no olhar a mensagem de que eu era o cara. Chamei para dançar e pelo desequilíbrio apresentado, vi que ela estava acometida de labirintite etílica. E fomos para a pista. Devemos ter saído de lá num piloto automático estilo NASA daqueles. Acordei no dia seguinte sem reconhecer meu quarto. Pensei:”Iihhh!..... Aconteceu de novo”. Amnésia etílica. Aí, murmurei....”Onde é que eu estou heim, porra”, ouvi de lá...”Na avenida Paraná 440, apto 803”.......Quando me virei para ver quem falava as minhas costas, me dando uma cocadinha gostosa, tava lá a morena cheinha, me olhando gostoso e cum sorriso de que eu não me saira mal na madrugada. Távamos os dois peladins, peladins. Nos abraçamos. Era domingo e foi sendo até eu sair de lá ad cinco da tarde, com instruções de como chgar em casa sem se perder. “Te ligo mais tarde?”, Ela fez que sim com a cabeça. Liguei para o telefone dado. Era engano. Pensei..”Filha da Puta”.......Nunca mais a vi. Também era Agosto. De 1984.

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